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PLANETA TERRA FESTIVAL

PLANETA TERRA FESTIVAL
(ou “Não tenho mais idade para certas coisas”)

(08/11/08 – Vila dos Galpões – São Paulo/SP)

Nada do que irei contar faria sentido se aos 43 minutos do segundo tempo, uma santa luz não aparecesse em meu departamento me oferecesse dois ingressos. Todas as possibilidades anteriores fracassaram: entrar como imprensa, concursos… Lógico que não tentei comprar, ainda mais porque não mais desfruto das maravilhas da meia-entrada.
Enfim. Lá estava eu. E a Joelma. Lembro-me que o último festival do porte que eu fui, foi no Hollywood Rock, quando eu ainda era daqueles adolescentes que enchem a cara e saem zoando. Ok, ok, nessa oportunidade ainda promovi a alegria dos adolescentes inconseqüentes com um strip tease no Estádio do Morumbi…
A produção do Planeta Terra adotou um local bem bacana, um espaço de galpões, que já abrigou indústrias. Na região há vários deles, pois muitas empresas fugiram dos impostos da capital.
Logo de cara, uma coisa me chamou a atenção: não haviam grupinhos de adolescentes inconseqüentes, emos, essas coisas… Só me dei conta quando me liguei que a entrada era só para maiores de 18 anos. Um pessoal simpático, sem aqueles histerismos que só um jovem é capaz de proporcionar.
Cheguei ao local às 19h10 e outra coisa diferente que eu não esperava: os shows estavam começando nos horários prometidos.
Como no palco (o tal do main stage) estava a pueril revelação do momento, Mallu Magalhães, que aliás não poderia estar ali por ser menor de idade. Resolvemos então conhecer a estrutura do local. Chegamos ao indie stage, onde já ia começar o show do Animal Collective. Após alguns probleminhas técnicos que causaram uma sonora vaia, começou o que a produção chamou de “um festival de várias experiências”. Enfim, entendi o slogan. Mas não o som da banda. Cheguei ao mesmo questionamento que faço às obras da Bienal: ou o artista abusa muito da criatividade, atingindo pontos elevadíssimos de imaginação, ou eu não entendo nada de arte. Não agüentei o fim da primeira música (ou não-música?). Foi a partir desse momento que comecei a gostar um pouco de Mallu Magalhães. Depois encontrei um amigo que ficou na expectativa de algo melhorar até a terceira música. Não teve sucesso.
Cheguei ao main stage e a Mallu cantava sua última música.
Os próximos a subirem no palco foram os veteranos do Jesus and Mary Chain, que até então eu não conhecia nada. Falo sério. Tá bom, eu conhecia a capa de Psychocandy. Nada mais. Um amigo de Aracaju disse que seria o show da vida dele. Entendi o porquê. A banda é boa mesmo. Agora tenho que cumprir a promessa de baixar a discografia deles. Mostraram com muita competência o motivo que os mantém por mais de duas décadas na estrada. As clássicas “Head On”, “Happy When It Rains” e “Just Like Honey” botaram o povo pra cantar.
Na seqüência, entrou mais uma banda famosa que eu conhecia quase nada (só umas quatro músicas que vi na MTV ou na época em que eu tinha saco para rádios-rock): The Offspring. Não sei, mas nunca curti o vocal moleque de Dexter Holland (que está a cara do Lenine!). Mas senti que a rapaziada curtiu muito e cantava todas as músicas, mesmo com o som horrível (dos equipamentos, não da banda!). Se bem que ouvi um pessoal old school comentando que eles não tocaram nada do primeiro e segundo disco. Coisa de velhos. Mas o certo é que foi o mais agitado da noite, com direito a bonés, blusas e camisetas voando ao som das três guitarras da banda californiana.
No intervalo do show aconteceu uma das coisas mais bizarras do festival: no telão aparecia a repórter da Terra TV nos bastidores do show e ela, esperando que o público fosse formado por fãs histéricos, achou que estava abalando mostrando o camarim vazio do Bloc Party e, sem ela perceber que os integrantes da banda estavam atrás dela! Ela chegou até a olhar pros caras, mas parecia que não reconheceu. Pior ainda ela batendo na porta do camarim do Kaiser Chiefs. Que tal exibir clipes da próxima vez?
Enfim, Bloc Party ao vivo! Depois do fiasco de tocar playback no VMB desse ano, a banda tinha obrigação de fazer um ótimo show. Fez um bom show. Com direito até a um pedido de desculpas do vocalista Kele Okereke sobre o episódio da MTV e se esforçou para dar o melhor dele para o público. Independente de qualquer coisa, essa é a melhor banda da atualidade na minha opinião. Muitos cantaram as músicas em coro, com destaque para “She’s hearing voices” e “Price of gas”.
Detalhe: a banda foi a única a agradecer em conjunto ao público.
Mas a atração da noite estava para chegar: a chamada “banda queridinha inglesa”, o Kaiser Chiefs. Sinceramente não sabia que o público deles no Brasil era tão grande. Lembro que eu soube da banda depois de uma entrevista que vi o vocalista do Echo & the Bunnymen, Ian McCulloch, declarar que o KC era sua banda favorita. Imaginei que o público era mais restrito. Mas não é. Tanto que foi no show deles que vi a primeira exaltação de fãs.
Mas a banda no palco é uma energia só. A começar pelo vocalista Ricky Wilson, que logo na primeira música se atirou no público, que cantou todas as letras em uníssono.
Wilson ainda levou uma “colinha” com algumas expressões em português, inclusive “eli é um herói”, referindo-se ao tecladista Peanut, que foi operado na véspera do apêndice. Lógico que quase ninguém entendeu a referência.
Enfim, foi um show digno de fechar festival. Mas a banda pecou feio em não voltar para o bis e não cantar “Born to be a dancer”, que parte do público até arriscou o coro do “ô, ô, ô, ô, ô…”. Nem tudo é perfeito.
Enfim, um festival bem organizado, com bandas boas (pena que não consegui ver Breeders…). Cumpriu seu papel. Pena que quando eu era mais novo os festivais não eram assim… Pois teria pique para ver a tão falada Vanguart, que abriu o festival… Melhor deixar isso para quem tem mais pique: os menores de idade.

Por Márcio Sno

Deise Santos
Carioca, jornalista, produtora cultural, baixista e guia de turismo. Deise Santos é apaixonada por música - principalmente rock e suas vertentes -, literatura, fotografia, cinema, além de colecionadora - contida - de vinis. Pé no chão e cabeça nas nuvens definem a inquietude de quem está sempre querendo viajar, conhecer pessoas e culturas diferentes. Idealizadora do Revoluta desde seus ensaios com zines, blogs e informativos, a jornalista tem como característica a persistência em projetos que resolve abraçar.
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