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Risadas, baratas e rock n’ roll

Por Márcio Sno

Dá pra imaginar um cara que vive o rock publicar um livro para colorir? Não. “Para colorir” é o nome do livro. Mas não um livro comum. Um livro musical feito por um cara que respira música e é um ser comum como todos nós: sente friozinho na barriga quando encontra com uma pessoa que admira, tem medo de barata… Essas coisas. Mas Ricardo Cury possui algo que poucos normais têm: a sensibilidade para observar “situações pautáveis” e o talento para escrever bem. Tá, também tem um inteligente gosto musical, que podemos conhecer nas páginas desse livro – para cada texto tem pelo menos uma referência musical.
O livro com mais de 300 páginas foi lançado de forma totalmente independente e já vendeu muitas cópias (em relação a publicações independentes) que o autor distribui naquele velho esquema de zines: enviando pelo correio ou em lançamentos por todo o país.
Aumente o volume e confira um pouco do que o baiano tem.

Pode parecer banal a pergunta, mas por que o nome “Para colorir”?
Uma das coisas, talvez a principal, é que sempre recebi um retorno das pessoas que liam os textos no blog, comentando sobre a coisa do humor, que se divertiram lendo, deram risada… Disso vem o colorir. Algo como “Para se divertir”. Pra mim, risada tem a ver com cores. Outro fator também importante é o conceito gráfico do livro, todo em preto e branco, que, por sinal, foi também pensado dessa forma para baratear os custos, já que eu que banquei essa primeira edição. Se tivesse cor, seria muito mais caro.
E por fim, a contradição de usar no nome um termo que é atribuído aos livros infantis…

Você já distribuiu 75% da tiragem do livro. Qual o balanço que faz?
Estou bastante satisfeito com o que o livro fez. Fiz 1000 exemplares, vendi 590 e dei 200 pra divulgação. Isso tudo nesse ano de 2008, que foi o ano do seu lançamento. Ainda tenho uns 200 e pouco, que aos poucos vão saindo. Por semana vendo dois, às vezes três… Mas sempre vende. Outro balanço importante que faço é o da distribuição por empréstimo. Pessoas que emprestaram o livro pra algum amigo ou parente. Sempre recebo mensagens desse tipo, de gente que leu o do vizinho, da namorada… O que me faz perceber que o livro tá circulando por aí. Uma amiga minha disse que todo mundo que lê o exemplar dela tem que assinar. É a melhor forma de divulgação. Vale mais que 30 segundos no intervalo do Jornal Nacional.
Por fim, o balanço financeiro, onde o livro, apesar de ser em PB, custou caro, tem 320 páginas, papel pólen, e esse retorno financeiro nas vendas foi bastante significativo pra equilibrar os seus custos.

Não é muita ousadia lançar o seu primeiro livro sem o nome do livro e do autor na capa?
Talvez… Mas é uma das coisas do livro que olho hoje e não me arrependo. Primeiro que considero o desenho de Ricard, ilustrador do livro, fabuloso. Daí, não tinha porque eu colocar o meu nome ou algo em cima dele. E um livro não é um outdoor, onde as informações têm de estar perfeitamente visíveis. Livro é uma coisa pra você, na primeira vista, abrir, futucar, folhear, ler… E nesse tempo, todas as informações (o nome do autor, o nome do livro, do ilustrador, do revisor, do diagramador) vai ser achado facilmente. Outra coisa também é que já me exponho demais dentro do livro, nos textos, pois falo de acontecimentos reais, daí não precisava me expor fora dele, com meu nome gritando na capa.

O livro tem um formato que lembra um disco: textos soando como faixas e até um espaço no final do livro que lembra uma faixa escondida. A intenção era essa mesma de deixar com cara de disco?
Sim. A música é o que dá o tom do livro. O livro só existe por causa da música, da minha carreira de baterista, tentando ter uma banda de rock and roll que fizesse sucesso. Os rodapés são para as músicas citadas nos textos e seus autores, discos, ano de lançamento e capinha do disco. Fico feliz que você tenha tido essa impressão.

Nas situações descritas em seus textos você pensava “isso dá um bom texto” ou só percebeu isso depois?
Em alguns, sim e em outros, não. No texto do meu encontro com Caetano, por exemplo, é um que seria muito óbvio eu pensar que daria um bom texto, mas na hora isso não me passou pela cabeça. No dia seguinte ao fato, em Recife, na praia, eu estava sentado na areia quando comecei a pensar “e esse encontro com Caetano Veloso no avião… que loucura… e quando ele disse que gostava da brincando de deus (minha banda)… e quando ele falou que era fã do Pixies… e quando ele paquerou a aeromoça… porra, isso dá um texto”. Na mesma hora fui escrever.

Cada texto do livro traz uma ou mais referência de músicas. Tudo em sua vida tem uma trilha sonora?
Acredito que na de todos nós. Música é a arte mais difundida no mundo. Em todo o momento se está ouvindo música. No trabalho, no trânsito, em casa, no mar, nos bares…

Já pensou em lançar uma trilha sonora do livro?
Rapaz, um podcast seria uma ótima idéia… Curti.

Quando você lançou o livro, afirmou que tocar estava fora de questão. Ainda mantém esse discurso? Até quando acha que vai resistir?
Yeah. Mantenho esse discurso com muito prazer. Sempre que alguém chama pra fazer um som, a resposta básica de um músico é aceitar. Depois que decidi parar de tocar, ainda assim, sem querer, aceitava fazer alguns shows com amigos, e sempre pensava “pra quê fui aceitar?”. Um dia, um amigo me chamou pra tocar num show com uma banda e tal e eu disse “não”. Ele me olhou surpreso, perguntou porque e eu repeti “não, não quero tocar”. Foi incrível a sensação. Depois desse dia me libertei de vez. Falo “não” na maior tranqüilidade e alegria.
Porém, até quando, não sei mesmo.

Você é um cara que toca, vai a estádios, lança livro e viaja o Brasil todo, sem ter retorno financeiro com isso. Como a Cris lida com isso?
Tenho meus trabalhos, inclusive todos na área de redação, que fazem a parte do retorno financeiro, e muitos destes trabalhos foram conseguidos a partir do livro, colocando ele como parte do meu curriculum vitae.
Cris, por ser engenheira, tem uma visão mais exata das coisas, e essa coisa de trabalho freelancer nunca foi nada exato, o que sempre a incomodou. Porém, com o tempo e a convivência, eu fui ficando mais exato e ela um pouco mais emocional… aí chegamos num equilíbrio que faz as coisas fluírem de forma tranqüila.

Com o seu livro, Leonardo Panço tomou coragem para lançar o “Caras dessa idade já não lêem manuais”. Como é isso para você? Houve mais situações do tipo?
O seu trabalho influenciar uma pessoa dessa forma é realmente um ponto de vista interessante pra achar que fez a coisa certa.
Houve algumas situações parecidas com a do Panço, sim, de gente que, a partir do meu, criou coragem pra fazer um livro também, principalmente quando perceberam que podiam fazer de forma independente, sem precisar de uma editora. Mas sempre recomendo: corra atrás pra divulgar e vender.

Qual história gostaria de ter colocado no livro que não entrou?
Existem algumas histórias que foram tiradas da edição final, assim como outras que foram colocadas… A vontade de mudar acontece o tempo todo, então não dá pra ficar pensando “aquela história poderia ter entrado”, pois, com certeza, mais tarde, acharia que era aquela outra quem deveria ter entrado… Acho que o livro tá beleza como tá. Talvez mudasse algumas coisas, mas ele é o que é e pronto. Uma hora tem de terminar o trabalho. Ou melhor, abandonar o trabalho.

No livro você conta histórias de seus encontros com algum de seus ídolos. Quem você ainda precisa encontrar para contar uma história?
Alguns poucos… McCartney, Ringo, Michael Stipe, Angeli, Ziraldo, Mauricio de Souza e Quino.

Como anda a sua fobia por baratas? “A Metamorfose” de Kafka é um livro de terror para você?
Rapaz, barata é foda. Um bicho daquele tamanho, que coloca pra correr diversas pessoas ao mesmo tempo, é, no mínimo, para ser respeitado. Entrando na questão acima, esse texto das baratas é um dos que às vezes eu penso que não deveria ter entrado… Mas depois mudo de idéia.
“A Metamorfose” causa um asco, mas não chega a ser terror. A história é mais intensa que o bicho. Um amigo meu disse que ia fazer um curta de um minuto, encenando “A Metamorfose”. Quando ele viraria barata, iria olhar pra câmera e dizer:

– Boa porra.
Lançamento de “Para Colorir” em São Paulo

Dia 29 de novembro, sábado, às 16h

Livraria Pop – www.livrariapop.com.br

Rua Dr. Virgílio de Carvalho Pinto, 297, Pinheiros, São Paulo – SP

Contatos:
http://www.ricardocury.blogspot.com

cury78@terra.com.br

Créditos:

Foto por Angelo Monteiro

Ilustrações por Ricard

Deise Santos

Carioca, jornalista, produtora cultural, baixista e guia de turismo.
Deise Santos é apaixonada por música – principalmente rock e suas vertentes -, literatura, fotografia, cinema, além de colecionadora – contida – de vinis.
Pé no chão e cabeça nas nuvens definem a inquietude de quem está sempre querendo viajar, conhecer pessoas e culturas diferentes.
Idealizadora do Revoluta desde seus ensaios com zines, blogs e informativos, a jornalista tem como característica a persistência em projetos que resolve abraçar.

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