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Rock n’ roll …and rapadura for all!!

Adelvan. Escarro Napalm. ETC. Quem viveu no underground dos anos 90, com certeza já ouviu um desses nomes. Pode até nem saber do que se tratava, mas sabia que existiam. Os três estão intimamente ligados. Ou são a mesma coisa. Ou os dois. Sim, tudo isso junto. Adelvan foi editor do fanzine Escarro Napalm, cantou no ETC (sigla de Eu Te Como) e é um dos eternos ícones da cena alternativa brasileira. Roqueiro desde que se entende por gente, está com sua antena lá em Aracaju sintonizada com o mundo. E é lá que também comanda todas as sextas-feiras seu programa de rádio que é exibido simultaneamente na internet, o Programa de Rock. O nosso fã ardoroso e colecionador de seriados de TV conta um pouquinho de sua vida e os motivos que fazem com que ele continue firme e forte nesse espaço virtual chamado underground.

Por Márcio Sno

Explique para o mundo quem é o Adelvan.
Eu diria: leia a entrevista e tire você mesmo sua conclusão. Ou não.

Como você descreveria o jovem Adelvan do final dos anos 80, quando se envolveu com o rock?
Eu me descreveria como um revoltado, basicamente. Revoltado principalmente contra aquela velha educação católica castradora e repressiva, que faz a gente se sentir culpado por tudo o tempo inteiro. Decidi que não queria passar o resto de minha vida ajoelhado pedindo perdão, e nesse sentido o rock and roll me forneceu uma cultura libertária com a qual me identifiquei e adotei para contrapor a minha formação católica. Fisicamente, um moleque extremamente magricela, só tinha cabelo e nariz, com um monte de espinha na cara e vestindo uma camiseta verde-cana silkada com uma cópia tosca da capa do Live after death do Iron Maiden e o número 666 estampado atrás. É sério, eu tinha essa camiseta. E meu apelido era “Satan”. Um jovem, realmente – tinha por volta de 15 anos quando comecei a curtir rock. Sou da geração Rock in Rio/Revista Bizz. Só quando a Globo começou a fazer aquelas matérias sobre as bandas que tocariam no primeiro Rock in Rio, de 1985, eu fui começar a achar aquele mundo que eu vislumbrava até então apenas como exótico também interessante e diversificado. Fui vendo que haviam conceitos ali, não era só coisa de maluco. Notei que havia toda uma cultura alternativa a ser explorada, uma cultura que não chegava até mim, cidadão comum do interior de Sergipe (morava em Itabaiana, na época). Era algo a ser perseguido, caso quisesse se aprofundar, já que o que passava na televisão eu notava que era apenas a ponta do iceberg. É aquela velha historia clássica do moleque que começa a crescer e procurar novos horizontes para além de sua cidadezinha provinciana natal – no caso, eu era um dos “freaks”, um dos que não conseguiam se adaptar ao convívio social “normal” – ou padronizado, pelo meu ponto de vista.

Quando você percebeu que essa viagem ao mundo do rock não tinha mais volta?
Acho que foi quando eu fui para o Rock in Rio II, já em 1991, e voltei de lá mais “roqueiro” do que nunca, cheio de idéias fervilhando na cabeça. A partir daí comecei a me envolver mais intensamente na produção de shows e com a idéia fixa de montar uma banda – comprei uma guitarra, mas não aprendi a tocar, então fui ser vocalista de uma banda grindcore pornográfico (em todos os sentidos) e crítico musical underground frustrado, uma entidade também conhecida pela alcunha de Fanzineiro – a segunda parte da sentença é brincadeira, ok? Desencanei logo dessa idéia de ser guitarrista e por conta disso nunca fui frustrado não. Pelo menos não que eu saiba, conscientemente falando. Foi nessa época também que comecei a publicar meu segundo e mais “famoso’ fanzine, o Escarro Napalm – já tinha publicado um nos anos 80 em Itabaiana, intitulado apenas Napalm.

O primeiro disco que você comprou foi o Viva do Camisa de Vênus. Você ainda tem? Costuma ouvi-lo? Quando ouve, o que passa por sua cabeça?
Não tenho mais o vinil, fiz a besteira de trocar pelo CD naquela época da transição em que quase todo mundo ficou deslumbrado com a tecnologia digital. Ridículo isso, era o disco número 1 de minha coleção, deveria ter preservado. Nunca mais ouvi não. Tenho um carinho especial pelo Camisa de Vênus por ter sido a principal banda a me colocar no caminho do rock, digamos assim – junto com o Ira! (meu disco número 2 foi o Vivendo e não aprendendo do Ira!, e esse ainda tenho guardado em vinil), mas não dá mais pra ouvir hoje com a mesma empolgação que ouvia nos anos 80, né? Os tempos eram outros, minha carga de informação não era suficiente para, por exemplo, detectar os plágios descarados que eles faziam, como de “That´s entertainment” do The Jam em “Passatempo” ou de “Gimme Shelter” dos Stones em “Só o fim”. Mas era uma banda necessária para a época, uma banda desbocada e vagabunda, como o rock deve ser, na maioria das vezes, pelo menos (nada contra rock poético e trabalhador). E Marcelo Nova, apesar de falar demais e, como todo mundo que fala demais, falar muita besteira, ainda é um cara a ser respeitado. Não dá pra não respeitar um cara que emprestou a guitarra dele pra Chuck Berry tocar, né?

Na sua última passagem por SP você usou pela primeira vez uma jaqueta de couro. É muito difícil ter rock na veia em Aracaju?
Kkkkkkkk – Você não esquece isso, né? Com o tempo e o amadurecimento fui vendo que não é preciso se enquadrar em estereótipos estéticos para se autoafirmar como “roqueiro”. Jaquetas de couro são legais, mas não dá pra usar aqui por causa do calor, vai-se fazer o quê? Andar numa sauna ambulante só pra dizer que é roqueiro? Sou um roqueiro feliz de camiseta, bermudas e chinelo de dedo. Na verdade sempre fui, nunca fui disposto a fazer esse sacrifício besta de andar de preto no sol escaldante só pra manter a postura maléfica não – lembre que mesmo no auge de meu radicalismo metaleiro adolescente minha camiseta do Iron era verde (risos). Aquela jaqueta de couro eu só usei acho que 2 ou 3 vezes em toda a minha vida.

Ao contrário da maioria do povo do rock, você tem o hábito da leitura, inclusive costuma ler autores polêmicos como George Orwell, Saramago, Nietsche. Que livro você indicaria para alguém do rock pegar o gosto pela leitura?
Mate-me Por Favor [de Larry ” Legs” McNeil e Gilliam McCain], sem sombra de dúvidas. Porque tem tudo a ver com o rock e tem uma linguagem coloquial, já que é todo montado a partir de entrevistas com a galera que viu o punk nascer, crescer e morrer. É muito divertido e inspirador, para o bem ou para o mal. Eu mesmo, ao lê-lo, tinha vontade de largar tudo pro alto e virar um punk de verdade, sair pela rua sem compromisso nenhum com porra nenhuma e ver o que acontece. Só que aí eu lembrava que aquela galera vivia no primeiro mundo, NY, Detroit, e eu vivo em Sergipe, Brasil, terceiro mundo total. É bem diferente. Aqui o bicho pega pra valer.

Você fez parte das polêmicas bandas ETC e 120 Dias de Sodoma. Como foram essas experiências e por quê o sonho acabou?
O sonho nunca acabou porque nunca existiu. Eram bandas despretensiosas (na verdade uma banda só, apenas mudou de nome), não nutríamos nenhum tipo de expectativa quanto a elas não. Só por diversão mesmo, pra “tirar uma onda”, como se diz por aqui. Claro que havia uma idéia por trás, e a idéia principal era bater de frente contra um certo dogmatismo que existia (ainda existe, na verdade, mas naquela época era pior) na cena underground, onde vários grupos se auto-proclamam “autênticos” e montam verdadeiras patrulhas ideológicas, tipo, punk é isso, punk é aquilo, metal é isso, metal não é aquilo. Nós achamos que qualquer um deveria poder ser o que quisesse da forma que quisesse na hora que quisesse, sem ninguém pra ficar enchendo saco e cagando regras o tempo inteiro, só isso. Simples assim. Nesse sentido, não deixava de ser uma banda com uma mensagem libertária.

Seu gosto musical é um tanto eclético. Fale um pouco a respeito.
Pois é, foi assim desde o início. Comecei ouvindo o rock nacional que tocava nas rádios (o rock era a música mais popular do Brasil na época, metade dos anos 80, veja só), aí conheci o Iron Maiden (com o disco Somewhere in time, lançamento na época, adorava aquela capa com o Eddie numas de Blade Runner) e o Metallica, tive uma fase bem metal, mas logo logo conheci o punk também e curti muito, via principalmente Nevermind the Bollocks do Sex Pistols e o Descanse em Paz do Ratos de Porão, que abriu minha cabeça pros sons realmente agressivos e “underground “. Nessa fase curtia basicamente som pesado, mas tinha uma certa admiração à distância por grupos como The Smiths, Fellini, Cure, Siouxsie and the Banshees. Achava aquilo ali muito sofisticado, mas não conseguia gostar, acho que minha cabecinha dura de roqueiro louco adolescente não tava preparada pra tanto. Essa barreira foi quebrada com o disco Psychocandy“ do Jesus and Mary Chain, que era incrivelmente barulhento porém ao mesmo tempo tinha melodias suaves e sofisticadas por trás da massaroca sonora. A partir daí fui conhecendo e curtindo cada vez mais o chamado “indie rock”, Pixies, Sonic Youth, a brasileira Second Come. Não saberia explicar porque sou eclético não. Acho que música é estado de espírito – tem hora pra ouvir som porrada, tem hora pra ouvir melodias tristes. Nunca consegui entender uma pessoa que só ouve um mesmo tipo de música, o tempo inteiro, não. Também nunca fui de me enquadrar tão rigidamente em “tribos “- sou de uma tribo bem ampla, a tribo do rock. Sou um roqueiro assumido – inclusive gosto dessa palavra, é a versão brasileira do termo “rocker”, não tem porque não adotá-la, já que eu sou brasileiro e gosto de rock.

Como foi que criou os fanzines Napalm e Escarro Napalm?
Fiz meu primeiro fanzine sem saber que tava fazendo um fanzine. Queria compartilhar as informações que tava recebendo através de revistas como a Bizz e, principalmente, na época, a Rock Brigade (já tinha partido pras searas mais “underground“), mas tinha muito ciúme de minhas revistas, não emprestava nem a pau. Aí fiz o que eu pensava que fosse uma espécie de apostila, na época, com umas mini-biografias das bandas que eu mais curtia, Led Zeppelin, Venon, Black Sabbath, por aí, só metal. Fiz imitando uma revista, era a MINHA revistinha de fã, e batizei de Napalm, em homenagem a uma casa noturna que tinha em SP e cujo nome eu achava foda, pois remetia àquela bomba louca que espalhava gasolina e que os americanos soltaram aos montes lá no Vietnã. Aí os caras de uma loja especializada em discos de rock de Aracaju ficaram conhecendo meu zine e se espantaram do mesmo ter citações de George Orwell, de quem eu já era fã, na capa. Me ajudaram numa tiragem maior de cópias xerox e o zine se expandiu, chegando até Sylvio da banda Karne Krua, que me influenciou bastante mandando um monte de material de fanzines punk com os quais ele tinha contato. Só aí fui saber que existia toda essa movimentação de publicações e de bandas por vias totalmente alternativas, via xerox e fitas K7 enviadas por correio. Achei fascinante, mas na época não tinha grana pra bancar o correio, então minha atuação foi bem tímida. Só mais tarde, em 1991, quando já morava em Aracaju e trabalhava, portanto tinha alguma renda, criei um novo zine, o Escarro Napalm, e já na primeira tiragem mandei para um monte de endereços que tinha pego na coluna Run Xerox da extinta revista Animal. O primeiro que me respondeu foi Fellipe CDC [editor na época do fanzine Protectors of Noise] de Brasília, não esqueço isso. O segundo mandou de volta o fanzine, porque eu tinha escrito “pau no cu de Deus” na contra-capa junto a uma imagem do Frei Damião (um padre aí que era bem popular aqui no Nordeste na época, considerado santo e tal pelo povo) com um monte de armas apontadas pra sua cabeça e ele não curtiu.

O que esses zines mostravam e o no que era diferente dos demais da época?
Quanto aos zines tinha em mente sempre a máxima de que “se você não tem nada a dizer, não diga nada”. Chegavam a minhas mãos muitos zines vazios em conteúdo, que se limitavam a colar releases e flyers de bandas e reproduzir panfletos. Poucos se arriscavam a emitir opiniões sinceras, especialmente nas resenhas de demos – era como se tivessem medo de ofender a pessoa da banda que mandou a fita para a resenha, e que geralmente era também um amigo. A velha conhecida “brodagem”. Eu procurava evitar isso, achava contra-produtivo e extremamente chato. A leitura daquelas resenhas repetitivas, politicamente corretas e cheias de frases de incentivo padronizadas era de um tédio atroz – mas eu lia tudo, tamanho era o meu interesse por aquele tipo de literatura. Já eu procurava focar no que de mais interessante me chegava às mãos, e se não gostava de algo que recebia muitas vezes ignorava, citava por alto ou, se fosse o caso, descia o malho mesmo, especialmente em bandas que, ao meu ver, investiam muito esforço e recursos em idéias equivocadas. Não acredito em critica destrutiva – uma critica negativa invariavelmente leva a pessoa a, no mínimo, pensar no porque daquela opinião desfavorável, e PENSAR sobre as coisas antes de executá-las ou de levar algo adiante é sempre uma boa idéia. O caso mais emblemático pra mim pessoalmente foi a resenha que fiz do primeiro disco da banda Insanity, de Fortaleza, para a já revista (começou como fanzine), na época, Panacea. Achava o som que eles faziam um thrash ultrapassado e sem criatividade, repleto de clichês do estilo – muito embora executado de forma competente, e disse isso na resenha, apesar de ser amigo de longa data de George Frizzo, o comandante-chefe (no bom sentido) da banda, por sinal uma das pioneiras do metal nordestino, tendo lançado seu primeiro compacto, em vinil, ainda nos anos 80. Frizzo ficou meio chateado, ao que parece, me deu umas reclamadas meio que em tom de brincadeira quando nos vimos num [festival] Abril pro Rock da vida, mas ao final ficou tudo bem, porque as pessoas podem se chatear no início, mas depois sempre chegam a conclusão de que é melhor uma opinião sincera do que críticas veladas ou do que aqueles que elogiam quando estão frente a frente mas que descem o pau quando se vira as costas. Tirando esse aspecto, que era um diferencial, a meu ver, meu fanzine seguia um estilo totalmente anárquico, sem regras – fazia como me vinha à cabeça, sem muita arrumação em colunas que lembrassem uma revista, por exemplo – na época havia uma distinção entre Fanzines propriamente ditos e os chamados pro-zines, que eram zines que seguiam muitas vezes à risca os moldes de uma revista, com editorias e espaços bem separados para matérias, notas e resenhas. O Escarro Napalm não era, definitivamente, um pro-zine.

Hoje tudo é muito fácil com a internet. Você pode imaginar se na época em que você tinha bandas e zines tivesse todo esse aparato tecnológico?
Teria sido tudo bem mais fácil, evidentemente, como é hoje. Mas de repente não se teria o mesmo tesão. Há uma frase que diz que o ser humano cresce na adversidade, esta é uma das contradições da alma humana. Muita facilidade deixa a pessoa acomodada, preguiçosa, sem tesão, e “sem tesão não há solução”. Mas também não vou cair no clichê de ficar falando que “antigamente é que era bom”, nada disso. Estou achando sensacional ligar o computador e dar de cara com blogs que oferecem links para discos que nunca saíram no Brasil ou aos quais eu dificilmente teria acesso, caso não existisse essa coisa absolutamente maravilhosa e revolucionária chamada internet. Exemplos: Só com a internet fui ouvir de fato a obra do lendário Daminhão Experiença, mendigo (por opção) que lançava discos em vinil por conta própria desde os anos 70 e do qual sempre tinha ouvido falar. E recentemente baixei o que acredito que seja a discografia completa do grupo britânico Durutti Column, que teve apenas 2 ou 3 discos (fora de catálogo) lançados no Brasil. Hoje em dia uma banda como o Laibach lança um disco novo e você consegue baixar pela net, e de graça, o que é mais incrível – mas ops, peraí, é proibido, é pirataria … Fala sério né porra, excetuando-se os grandes medalhões do mainstrean, que são os verdadeiros prejudicados, pois não precisam mais de publicidade já que são mais do que suficientemente conhecidos, para todos os demais artistas que procuram um lugar ao sol o download gratuito via internet só traz vantagens. Apesar de que há um efeito colateral desagradável, o excesso de informação disponível faz com que se torne ainda mais difícil separar o joio do trigo. É necessário sempre um filtro, uma referência, nesse caso a opinião de alguém com uma posição já consagrada na imprensa, como um Kid Vinil ou um Fabio Massari, sempre vai ter mais peso que a de um blogueiro de plantão de primeira viagem. Mas já começam a surgir talentos que se destacam e que foram descobertos primeiramente via net, como é o caso do jornalista Arnaldo Branco e de bandas como o CSS [Cansei de Ser Sexy], hoje em carreira internacional. Abro um parênteses aqui para registrar que Kid Vinil foi um de meus heróis, descobri muita coisa através de um programa de vídeo-clipes que ele apresentava na TV Cultura nos anos 80 (bem antes do surgimento da MTV), o “Som Pop”.

Qual banda underground que você investiria sua fortuna para lançá-la?
Gangrena Gasosa, sem dúvida. Acho sensacional a proposta deles.

Como você começou a apresentar o Programa de Rock? Fale mais como é o programa e quais personalidades já passaram por lá.
Apresentar e principalmente PRODUZIR – a questão do apresentar foi mais uma conseqüência, uma necessidade da gente comentar algo sobre os sons que colocava no ar. Não sou radialista nem locutor nem nada, nunca estudei para isso. Tudo começou com o convite feito pelo atual diretor da rádio, Patrick Torquato. É a rádio pública daqui do estado, controlada e mantida pelo governo estadual.
Com a última eleição houve finalmente uma troca de comando, caiu uma velha oligarquia que mantinha tudo como antes no quartel de abrantes há muitos anos, e com isso houve uma arejada na programação da Fundação Aperipê, que consiste numa emissora de TV e duas estações de rádio, AM e FM (a AM, por sinal, é a emissora mais antiga em atividade no rádio sergipano).
Patrick já conhecia nosso trabalho, meu e de Fabinho, da banda Snooze, e nos chamou para produzirmos em dupla um programa de rock, literalmente falando. Foi tudo bem espontâneo, decidimos que a proposta do programa seria o mais ampla possível, abrangendo todos os estilos e tendências do rock, mas garantindo sempre um espaço cativo para a produção independente e especialmente para a produção local. Procuramos, dentro dessa filosofia, chamar sempre as bandas locais para contarem sua história e mostrarem seu trabalho no ar, ao vivo, em entrevistas também informais e espontâneas já que, como mencionado, nem eu nem Fabinho somos profissionais do ramo, somos amadores no sentido mais literal da palavra. É diversão levada a sério, feita com dedicação e compromisso, nesses quase dois anos de existência o programa não deixou de ir ao ar um só dia, salvo por decisão da própria direção da rádio, quando os horários do programa se chocavam com alguma outra transmissão prioritária para a Fundação, como em junho, durante os festejos juninos, ou quando há alguma transmissão ao vivo em cadeia com a Rede de Rádios Públicas Nacional. Mas ressalto que fazemos o programa que queremos, com independência total, sem interferência nenhuma da direção da rádio. É uma produção independente, feita de forma voluntária e veiculada pela FM Aperipê.
Além dos grupos, artistas e produtores locais, procuramos entrevistar, sempre que possível, bandas de fora que estejam de passagem pela cidade. Foram poucas, em boa parte por uma dificuldade estrutural da cidade para este tipo de evento, já que é uma capital pequena do menor estado do Brasil, mas já passaram por lá as bandas mineiras Enne e Silent Cry, e os cariocas Uzômi, Gangrena Gasosa (na pessoa de seu vocalista Ronaldo Chorão, que estava de férias por aqui, na ocasião) e o produtor Michael Meneses, da Parayba Records. Sergipanos, pela própria disponibilidade (e também interesse nosso e da direção da rádio em destacar a produção local) foram vários: as bandas Plástico Lunar, The Baggios, Karne Krua, Urublues, Scarlet Peace, Sign of Hate, Cessar Fogo, Glory Box e Perdeu a Língua, entre outros, e os produtores Lucas e Edcarlos, da Rock Vivo (que fez shows do Krisiun, Angra, Shaaman e André Matos por aqui) e Fabio Andrade, da Terrozone Produções, uma produtora bem atuante que também trouxe uma série de atrações nacionais e até mesmo internacionais, como o Sinking da Finlandia e Blaze Bayley, ex-vocalista do Iron Maiden.
Enfim, com essas iniciativas, esperamos estar dando nossa cota de contribuição para a cena local, além de estarmos nos divertindo, o que é também muito importante, afinal. É divertido de fazer e fazemos como satisfação pessoal, é satisfatório saber que estamos agradando pessoas com a mente aberta que entendem a importância de uma maior diversidade cultural no dial e nos incentivam a continuar em frente, assim como é satisfatório saber que estamos incomodando outros com uma mentalidade estreita e preconceituosa, como um senhor que ligou pro programa pra dizer que iria fazer um abaixo-assinado pra tirar o mesmo do ar pois era um lixo que só tocava música estrangeira pra corromper a juventude. Achei uma pena ele não ter feito o tal abaixo-assinado, ia ser publicidade gratuita.

Fale um pouco desse seu projeto para a TV.
Imagino que por conta da indicação do Programa de Rock para o Prêmio Dynamite na categoria melhor programa de rádio, surgiu um convite por parte da presidente da Fundação Aperipê para que produzíssemos uma versão para a televisão do programa. Estamos produzindo o piloto, com algumas matérias e vídeo-clipes. Ainda não há data para ir ao ar nem definição se será apenas um especial ou se será um programa semanal – tudo vai depender de uma série de fatores, já que produzir para a TV é, definitivamente, infinitamente mais complicado que para o rádio. Quem viver verá.

Recentemente o Chorão3 declarou para o mundo todo no Portal Rock Press que é apaixonado por você e tudo mais. O que acha disso? Aproveite esse espaço para responder à altura.
Eu diria que é um amor correspondido. Pena que ele é casado…

Se pudesse apagar algo nessa sua caminhada, o que seria?
Nem tinha percebido que era uma caminhada, foi tão natural. É minha vida, né? É o que eu gosto, com o que me identifico. É o que eu sou. Não apagaria nada não, acrescentaria – aliás, estou acrescentando, sempre que possível. Estou em pleno caminho ainda, afinal. Espero morrer caminhando.

O que tirou de proveito disso tudo?
Muita coisa. Dos tempos de fanzineiro ficaram especialmente as amizades que fiz Brasil afora, dentre elas, a sua. Através dos zines conheci muitas bandas muito legais que sumiram na poeira do tempo, não “aconteceram”, no sentido de projeção midiática – bandas que eu não conheceria de outra forma. Nem vou me arriscar a citar porque são muitas. Dos shows, as lembranças de momentos inesquecíveis, tanto no “underground”, Festivais alternativos (BHRIF, Goiânia Noise, Abril pro Rock) e grandes Festivais como o Rock in Rio II, no qual vi Judas Priest na turnê de Painkiller, Megadeth com Rust in peace e Sepultura lançando o Arise, e um Hollywood Rock que fui e no qual vi Jimmy Page e Robert Plant, The Cure, Smashing Pumpkins (me lembro claramente que tava no banheiro mijando e a parede tremendo ao som de “Today”, uma de minhas músicas preferidas deles), vários shows underground Brasil afora, grandes sons e grandes amizades. Em resumo, eu diria que viver é bom quando a gente corre atrás de nossos sonhos e não fica “sentado no trono de um apartamento com a boca escancarada cheia de dentes esperando a morte chegar”.

 

Deise Santos
Carioca, jornalista, produtora cultural, baixista e guia de turismo. Deise Santos é apaixonada por música - principalmente rock e suas vertentes -, literatura, fotografia, cinema, além de colecionadora - contida - de vinis. Pé no chão e cabeça nas nuvens definem a inquietude de quem está sempre querendo viajar, conhecer pessoas e culturas diferentes. Idealizadora do Revoluta desde seus ensaios com zines, blogs e informativos, a jornalista tem como característica a persistência em projetos que resolve abraçar.
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