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Dead Fish está contra todos?

Dead Fish acaba de lançar Contra Todos, pela Deckdisc, e entre uma entrevista e outra, além da correria diária, o vocalista Rodrigo arrumou um tempo para responder a uma breve entrevista para o Revoluta, onde fala dos anos na estrada, as mudanças na formação e o novo álbum. A banda não se deixou levar pelo modismo e buscou o diferencial, o que fez dela uma das mais respeitadas e reconhecidas bandas nacionais. Confira o bate-papo:

Por Deise Santos
Fotos por Luringa

 

A banda chega à maioridade este ano. O que significa pra vocês, todos esses anos na estrada?
Aprendizado, basicamente isso, a gente acha que sabe muita coisa quando está começando, mas depois de muitos anos a gente olha pra trás e vê que aprendeu bastante.

O que está dentro da mala do Dead Fish? O que vocês “colecionam” em todos esses anos?
Acho que colecionamos muitas viagens pra lugares que nunca iríamos com uma vida comum, vários amigos sinceros e risadas, alguns inimigos e brigas boas de se lembrar, uma visão diferente de mundo que a maioria das pessoas quase nunca vê, e muitos, muitos problemas que serviram pra gente ir aprendendo. Sem falar em seis álbuns e muitas turnês.

Tem alguma coisa (pensamento) que acompanha vocês desde o início da banda? Ou no decorrer dos anos as coisas mudaram na cabeça de vocês em relação à cena e à proposta da banda?
Não sou mais o garoto de 16 anos que fundou a banda, mas alguns sentimentos ficam sim, como querer estar na estrada, ver as pessoas, conhecer lugares novos.

Dead Fish é uma banda que tem um público diversificado, desde os amigos que acompanham vocês desde os idos anos 90, como outros que nasceram com ou depois da Dead Fish. Vocês têm um termômetro dessa diversidade através de contato e como isso se reflete na banda (composições, letras…)?
Eu não consigo explicar isso, somos velhos, nos sentimos velhos, mas a gente sempre teve uma constante renovação de público e isso é complicado de explicar. Talvez por sempre termos sido uma banda em constante mudança internamente.

Contra Todos é direto e a primeira música do álbum mostra que não é hora de meias palavras, é isso mesmo que vocês queriam passar?
Exatamente, não temos mais tanto tempo pra ficar floreando as coisas, não neste.

O novo álbum traz letras politizadas, o que é uma marca registrada da banda, mas o conteúdo deste parece ser mais direto, isso tem a ver com a mudança pra São Paulo? É o reflexo de um novo ângulo de visão das crises e problemas?
Eu acredito que sim, a gente vai fazer 5 anos de São Paulo, nossa relação com a cidade é de amor e ódio como acontece com todos que vivem aqui.
Problemas na real vão estar sempre aí, até a gente morrer este país vai mudar muito pouco do que é hoje, mas precisamos dar uma visão diferente pra fazer outros caminhos pra superarmos isso. Talvez nossos filhos e netos consigam fazer algo mais profundo, a gente tem é que segurar a onda por hora.

Asfalto é um diário de bordo que se aplica a qualquer banda que como vocês não para nunca. Que histórias inesquecíveis vocês podem contar das horas que vocês passam na estrada pra chegar num local pra tocar? Teve “aquela situação” que todo mundo se lembra sempre que se fala das turnês que já fizeram?
Sempre vamos lembrar das coisas que passamos na estrada, “Asfalto” fala sobre isso.
Me lembro de uma vez no Rio que fomos deixar o Bambo (ex-guitarrista do noção de nada) na porta da rodoviária Novo Rio, nosso motorista da van pegou uma contramão pra tentar pegar a alça de volta pra Ponte Rio-Niterói, o cara fez uma lambança e fomos abordados de arma na mão por duas viaturas da policia, neste dia eu tive certeza que ia morrer, porque os policiais estavam putos porque o Clebão (o motorista) estava indo em direção a uma favela, na contramão com uma van e uma carretinha atrás no meio da madrugada. Os “bigode” disseram que era pra abrir fogo na hora, estavam putassos e aí começaram a enrolar a gente, perguntar das notas dos CDs (isso está na música) levaram a gente pra um canto onde tinham umas docas sinistras, e pra variar o Alyand desenrolou a situação.

Outro ponto que é abordado no novo álbum é a relação do homem com essa nova(velha!) ordem mundial que é o consumo. E curiosamente Subproduto e Descartáveis mostram essa relação, falam de escolhas e opções. Será que há solução? Será que o homem voltará a ser valorizado ou o que sobrar vai mesmo pra debaixo do tapete?
Não acredito em solução, não antes de uma enorme cagada mundial tipo um tsunami de plástico ou uma tempestade de bituca de cigarro atômica. Eu acho que as coisas pioram, sempre achei isso. Até mês passado as pessoas me chamavam de “Sr apocalipse” “mensageiro do fim” estas porras, mas agora nego vem dar tapinha nas costas e falar “é, tá foda”. Mesmo assim eu acho que as pessoas não vão mudar de postura, leva um tempo pras pessoas, até os pobres, entenderem que não precisam de metade do que consomem ou até mais.

Vocês acreditam no poder transformador da arte? Da música mais especificamente como influência para reflexões e tomadas de atitudes?
Não acredito não, a arte pode ajudar as pessoas a tomarem consciência de si mesmas e do mundo, mas só ela não faz diferença, tem que ter um fim de mudança mesmo, com economia, educação, meio ambiente envolvido e isso não se faz só por meio da música ou da arte.

A banda passou por mudanças na formação recentemente. Como está sendo a adaptação à “nova cozinha”?
Tem sido tranquilo pra banda e mais tempestuoso pra mim eu acredito.

Porque tem sido tempestuoso pra você a adaptação ao novo baterista?
É complicado pra mim que vivi com o cara mais de 20 anos, sou amigo dele antes de ter uma banda entende?

E como foi o processo de escolha e como chegaram ao Marcão que tem uma pegada muito mais agressiva e técnica do que o Nô?
Queríamos que fosse alguém que entendesse o rolê do hardcore, as condições os perrengues e tudo mais e que não fosse tão jovem porque nem ia combinar também. Daí fizemos testes com amigos e chegamos facilmente nele.

Os integrantes da banda são envolvidos com outros projetos e bandas. Vocês podem falar um pouco sobre isso?
Sim, o Phil tem o Zander e produz bandas, o Alyand tem o Meiso, que é um projeto social na periferia de SP e toca no 88 Não, o Marcão toca no Ação Direta, no Música Diablo e tem o bar dele no ABC e eu escrevo pra uns sites aqui e ainda me dedico exclusivamente ao Dead Fish.

Deixo o espaço pra vocês deixarem o recado de vocês:
Obrigado aí Deise, valeu pelo espaço. Apareçam no lançamento do Contra todos no Circo Voador.
Vai framengo!

Para conferir a resenha de Contra Todos clique aqui.

Mais sobre a banda:

http://www.deadfish.com.br
http://www.fotolog.com/deadfishoficial
http://www.myspace.com/deadfishoficial

Deise Santos

Carioca, jornalista, produtora cultural, baixista e guia de turismo.
Deise Santos é apaixonada por música – principalmente rock e suas vertentes -, literatura, fotografia, cinema, além de colecionadora – contida – de vinis.
Pé no chão e cabeça nas nuvens definem a inquietude de quem está sempre querendo viajar, conhecer pessoas e culturas diferentes.
Idealizadora do Revoluta desde seus ensaios com zines, blogs e informativos, a jornalista tem como característica a persistência em projetos que resolve abraçar.

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