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Ação Direta alcança a maioridade

Uma idéia de dois amigos de escola resultou numa das bandas mais respeitadas do cenário independente nacional. Do punk ao metal, o quarteto do ABC paulista, percorreu 21 anos de estrada levando à risca o nome que escolheram: Ação Direta. Seja através da sonoridade (cada vez mais extrema e agressiva), das letras (conscientes e urgentes) e das apresentações contagiantes, a banda vem escrevendo sua história baseada na humildade.
Nesse bate-papo, o quarteto falou um pouco sobre sua trajetória, mas não é só isso, alguns amigos falaram ao Revoluta sobre essa banda que influenciou muita gente em mais de duas décadas de estrada.

Por Deise Santos

Como a banda surgiu?
Gepeto:Surgiu da idéia de dois amigos de escola do início da década de 80. Eu, Gepeto e o meu amigo Panda, ambos envolvidos com rock e suas vertentes mais agressivas e marginais. Os dois, insatisfeitos com os rumos do cenário da época, marcado por guerras tribais entre gangues da região, da capital e do interior de São Paulo resolvemos usar os instrumentos e microfone como meio de comunicação e como ferramenta de expressão.
Foi assim, que em meados de 1987 se iniciaram os ensaios, na época e uma história muito louca, que caminha para os seus 22 anos !!!

Em 21 anos de estrada quais foram os momentos mais difíceis para a banda?
Gepeto: Estar numa banda por tanto tempo significa uma grande vitória, pois a carreira é sempre marcada por altos e baixos. Já vivenciamos momentos difíceis, de muita pressão externa, interna, momentos que soubemos enfrentar e superar com muito diálogo, muito respeito e acima de tudo muito trabalho.
Estar numa banda é abrir mão de muitas coisas, é vivenciar um estilo de vida e aceitar todos os desafios de ser um músico num país de terceiro mundo.
Seguir com isso é uma opção, uma escolha.

A banda já passou por algumas mudanças na formação. Como foi isso pra banda? Qual a contribuição de cada integrante que passou pela banda?
Gepeto: Passamos por várias formações.
Algumas pessoas passaram pela banda simplesmente, outras vieram e deixaram suas marcas, sua arte.
Hoje estamos com a formação estabelecida há um bom tempo e este time é o que mais produziu para a banda e também o que vivenciou momentos mais intensos até agora.
Sempre que passamos por estas situações de mudanças, procuramos nos reorganizar o mais rápido possível e dar seqüência ao trabalho. Com o tempo as coisas vão se ajustando.
Acho que somos uma boa família e o time atual é o que mais representa a AÇÃO DIRETA na sua essência!!!

Ação Direta conseguiu entrar na cena por mais de uma porta (hardcore/metal), algo não muito comum na década de 80. Como foi que vocês conquistaram o público?
Gepeto: Como disse no início, temos esse contato com a cena Punk/HC e a cena Metal desde o início da banda, quando na época, já dividíamos ensaios com o HAMMER HEAD e tal.
Conquistamos isso com a nossa própria postura natural, que sempre foi a de respeito e coletividade!!!
No passado enfrentamos tensões por conta disso, da intolerância por parte das minorias, mas hoje temos orgulho de termos nos mantido íntegros e de não termos seguido nenhuma tendência, moda ou radicalismos idiotas.
Também tivemos a iniciativa de junto com outras bandas históricas como os próprios RDP de buscar esse contato, essa união, de propor e quebrar barreiras e pré-conceitos.

A banda tem uma discografia recheada de bons álbuns e a evolução é visível (ou diríamos audível?). Como se deu essa transição?
Gepeto:Foram os anos e anos de estrada que nos moldaram para isso. É estranho, mas nenhum álbum nosso soa parecido com o outro e isso se tornou nosso grande desafio, estar sempre criando e acrescentando algo a nossa música e não repetindo fórmulas.
Hoje temos o nosso próprio estilo e estamos olhando para frente !!! SEMPRE !!!

Mais do que um nome que traduz o Do It Yourself, Ação Direta é uma banda muito presente na cena underground. De onde vem essa força e persistência?
Gepeto: Somos envolvidos com o underground. Nascemos e crescemos dentro da cena !!! Amamos o que fazemos e creditamos na nossa música.
É difícil dizer como estamos nos mantendo por tantos anos nessa correria louca, mas é fato, estamos nós aqui cheios de gás para a temporada 2009 !!!

Algumas letras da Ação Direta, senão todas, são gritos presos na garganta das pessoas que vocês traduzem em música. Qual a vivência de vocês, de onde vem a inspiração das letras
Gepeto:Somos pessoas normais, trabalhadoras, sonhadoras, cidadãos corretos e é através dessa música que colocamos nossas idéias, vontades e expressões para o mundo !!!
Gostamos de misturar o cotidiano com o existencialismo, de abordar temos relacionados ao ser humano e de incentivar as pessoas a refletir, pensar e ter suas próprias convicções.

Algumas pessoas envolvidas na cena destacam o profissionalismo da banda e os álbuns são um reflexo disso. Como é o processo de criação de um álbum? Como chegam à sonoridade e à plasticidade do álbum (arte, capa, etc)?
Gepeto: Tudo surge nas inspirações que nos chegam e que captamos e transformamos em músicas e palavras.
Vamos montando o quebra cabeças aos poucos, parte por parte e lapidando tudo.
Gostamos de trabalhar com liberdade de experimentar e sem pressões externas e assim cada álbum vai surgindo, ganhando forma e tem funcionado bem assim.
Gostamos de fazer parcerias com artistas relacionados a parte gráfica e também gostamos de nos envolver nessa parte. Somar é sempre bom quando todos estão inspirados e trazem idéias também.

A banda completou 20 anos, o que mudou e o que continua exatamente igual para vocês na cena
Pancho: Bom, somos uma banda underground de 20 anos de história, dedicação e compromisso com a arte, sobretudo com a música então acho que isso sempre foi assim e jamais vai mudar. O AÇÃO DIRETA se criou no meio de uma cena que na época estava começando a se misturar e com a ascensão do hardcore a gente foi crescendo junto, naturalmente, evoluindo e lapidando nossa música mas sem deixar de ser roots e com certeza cada vez mais agressivos. E creio que o que realmente mudou foi em relação a qualidade técnica tanto da banda quanto das condições a nós oferecidas para tocarmos e transmitirmos nosso recado de forma cada vez mais concreta e profissional ainda que dentro de um universo (paralelo) totalmente independente.
Marcão: Acho que a cena, ainda bem, mudou bastante de 20 anos pra cá. Em certos pontos tipo organização, os eventos e a estrutura ficaram bem melhor, mas em outro aspecto tem gente que não acompanha a evolução natural que tem que acontecer. Tipo, otários que ainda vão em shows e ficam querendo arrumar treta com outras pessoas que não pensam igual a eles ou não usem o mesmo visual, essas coisas idiotas..
Galo: Acredito que depois de 20 anos, a única coisa que continua a mesma na cena independente é que continua tudo acontecendo na base do Do-It-Yourself, porém vemos muito mais parcerias e menos picuinhas; os selos,organizadores de shows e membros de bandas perceberam com o passar dos anos, que é muito mais fácil conseguir as coisas unindo forças e desenvolvendo parcerias. Hoje é melhor do ponto de vista de estrutura para tocar, os equipamentos são melhores e a qualidade dos shows melhorou com isso. Mas underground é cheio de altos e baixos…

Agora vocês fazem parte do cast da 3 Mundos Produções, como foi esse contato e essa decisão de entrar para uma produtora. E o que isso significa para a banda?
Galo:Nós conhecemos o pessoal há mais ou menos 10 anos por causa do Dead Fish, tocamos juntos uma vez e nos tornamos amigos. Há poucos meses, conversamos com o Alyand e dissemos sobre nosso interesse em trabalhar de forma mais profissional na organização de shows para nos manter afastados de maus produtores e tocar em eventos de melhor qualidade. Ele achou que tinha tudo a ver com a proposta da produtora e iniciamos essa parceria que com certeza trará muito trabalho e diversão

Como se deu a volta do Pancho pra banda?
Pancho:Basicamente, o Gil – o guitarrista que me substituiu – já não estava mais na mesma sintonia de sair para tocar e dedicar o tempo à banda e resolveu sair (isso segundo os caras da banda) e eu estava na fúria, querendo tocar, mas o HATEMOSFEAR não tem muita agenda né, daí rolou que a gente se falou, fez uma reunião e resolvemos voltar à formação clássica (risos).
Marcão: Na verdade ele nunca deveria ter saído, mas foi uma opção dele e a gente aceitou como sempre fizemos na banda. Ficou cerca de 5 anos fora e nesse tempo conseguimos o Gil que fez a banda andar esse tempo sem o Pancho.
Marcão: A volta foi bem natural, o Gil tava com alguns problemas como tempo/família/trabalho/ noiva, e essas coisa não combinam com estrada, ficar longe de casa e estar sempre tocando. Aí o Pancho foi se aproximando da gente marcamos várias reuniões e em uma dessas ele se lançou e a gente convidou ao mesmo tempo para voltar a tocar com a gente e, é claro, o velho Pancho aceitou na hora.

O baterista Marcão agora está dividindo sua agenda entre o Ação Direta e o Dead Fish. E o Pancho voltou pra banda, mas continua com a Hatemosfear. Como vocês estão administrando as agendas?
Pancho:Cara, o HATEMOSFEAR nem é problema porque a gente mal ensaia quanto mais tocar né… Agora com o Marcão a gente tá se virando assim, fizemos alguns shows com o Edu (baterista do NITROMINDS – que também tem uma agenda super ocupada) e no momento estamos ensaiando com o Kiko (baterista do NECROMANCIA) para eventuais próximas apresentações.
Marcão: No começo tivemos alguns problemas com agenda, pois quando entrei no Dead Fish, a agenda das duas bandas já tinham datas marcadas e o pior no mesmo dia, mas foram uns dois ou três shows, agora já temos o controle da situação pois é a mesma agência que agenda shows pro Ação Direta e pro Dead Fish e assim vamos administrando essa doidera toda. Quanto ao Hatemosfear, funciona bem parecido, mas fica mais fácil porque a banda não é tão ativa e assim temos tempo pra fazer essas logística louca.

As produções não param e já está a caminho um “Best of” a ser lançado por aí… Fale um pouco sobre isso:
Pancho:Sim, tem um “Best Of” pra sair , provavelmente um lançamento SUDAMERICANO e por enquanto estamos selecionando as músicas.
Marcão: Na verdade gostaríamos de regravar algumas faixas de todos os discos até o Intervenção, mas agora fica meio fora de mão pra gente então o Best Of seria a melhor opção.
Galo: Existe um selo Peruano que irá lançar em breve um Best Of do Ação Direta.Serão aproximadamente 25 músicas de todas as fases do Ação.Para ilustrar estamos pensando em cartazes de shows de todas as fases.Em breve teremos novidades a respeito de datas de lançamento.

Quais são os próximos planos da banda?
Pancho: Planos? Poutz, VÁÁÁÁÁRIOS!!! O problema é tempo para fazer tudo né? A gente pretende fazer um disco de covers, regravar alguma coisa do começo da banda, registrar em DVD um show legal, mas acho que primeiro vai sair o Best Of e na sequência um disco novo, que já começamos a trabalhar nas músicas novas.
Marcão: Estamos começando a compor músicas novas, ainda bem no esqueleto, mas o trabalho já está em andamento, e também temos um projeto de um disco de cover, mas no momento está arquivado na gaveta, é bem provável que depois desse tal disco novo venha esse de covers.
Galo: A banda pretende continuar na estrada tocando sempre que possível, sempre que as condições permitirem… Estamos iniciando composições novas, ensaiando com um baterista reserva (risos), pois o Marcão também está tocando com o Dead Fish e com o Música Diablo e quando as datas coincidirem iremos tocar com o Kiko de Castro do Necromancia que já está ensaiando a todo vapor… Pronto pra guerra… Afinal o rock não pode parar…

Ação Direta é:
Gepeto – vocal
Pancho – guitarra
Galo – baixo
Marcão – bateria

Para conhecer mais:
http://www.myspace.com/acaodiretaoficial

 

Deise Santos

Carioca, jornalista, produtora cultural, baixista e guia de turismo.
Deise Santos é apaixonada por música – principalmente rock e suas vertentes -, literatura, fotografia, cinema, além de colecionadora – contida – de vinis.
Pé no chão e cabeça nas nuvens definem a inquietude de quem está sempre querendo viajar, conhecer pessoas e culturas diferentes.
Idealizadora do Revoluta desde seus ensaios com zines, blogs e informativos, a jornalista tem como característica a persistência em projetos que resolve abraçar.

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