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The Krents: mais vivos do que nunca

Depois de uma longa pausa a banda paulistana The Krents resolveu voltar à ativa em grande estilo: durante a edição 2013 do festival Psycho Carnival. O Revoluta.com conversou com Luiz Teddy, único integrante da formação original, para fazer um raio-x dessa banda que completa 20 anos, entre idas e vindas, sempre sobre a benção da “múmia de GG Allin”. Filho de Eddy Teddy, líder das bandas Coke Luxe – banda pioneira na cena rockabilly no Brasil – e Rockterapia, Luiz Teddy já tinha a veia infectada pela sonoridade rocker desde cedo e não demorou a montar sua primeira banda de rockabilly, Os Cadillacs. Esse foi o primeiro passo para que logo mais adiante surgisse a banda “The Krents”, sob a proteção e um empurrãozinho da lenda Eddy Teddy. Nesse bate-papo você vai descobrir que a vida de Luiz Teddy e da The Krents se entrelaçaram, ou seja, a inquietude e uma boa dose de rock são as molas propulsoras nessa história toda.

Como surgiu a The Krents?
Eu já era fanático por bandas mais rápidas e a vinda do Guana Batz ao Brasil foi a gota d’água, eu tinha que tentar fazer alguma coisa que misturasse tudo que eu gostava, temas de terror, putaria, maluquices e esquisitices sem deixar de lado o lance rockabilly e também o punk rock.
Como não tinha uma molecada que curtia isso aqui em SP, peguei meu irmão, Marcos para tocar batera e mais um amigo Alessandro para tocar em um festival, o “Fest Rango do ABC” Ficamos a noite toda fazendo um som, tentando escrever alguma coisa e ao mesmo tempo pensando no nome da banda. Essa noite me rendeu a música “Colapso Nervoso”, uma versão da música do Eddie Cochran, som que tocamos até hoje. Mas o nome que era bom, ainda nada…
No domingo de manhã, mal tínhamos acabado de acordar e já fomos amaldiçoados com a maldita campainha de uma turma de Testemunha de Jeová, quando meu pai grita do quarto: “- Atende essa porra que a esta hora só pode ser Crente. Aliás porque vocês não colocam o nome da banda de Crentes?”
Como éramos malucos por Cramps, e rimava….seremos os Crentes, mas com K, Krents, afinal já existiam bandas nacionais como o Kães e o K-Billies que já haviam feito isso, era uma bela homenagem a tudo isso.

E como foram os primeiros anos da banda?
O baixista saiu e entrou uma molecada que eram amigos do meu irmão e que já tinham me visto tocar em outras bandas. A banda passou então de trio para quarteto e logo depois para quinteto, onde eu larguei a guitarra base e passei a só cantar.
Foram 4 anos intensos – de 93 a 97 – onde tudo aconteceu muito rápido. Gravamos nossa primeira demo e com isso já entramos na coletânea Psychorrendo que abriu porta para tocarmos no segundo Psychofest em Curitiba e em uma porrada de lugar. Ao mesmo tempo o Luiz Calanca, da Baratos Afins, escutou nossa demo e ficou pirado, se “convertendo” na mesma hora e nos convidando para gravar nosso primeiro CD “Krents”, sem experiência nenhuma de estúdio metemos as caras e gravamos, incluindo alguns covers do Coke Luxe e Rockterapia (bandas do meu pai). Porra fizemos sons na MTV, tocávamos em todas as rádios, saímos em livros, revistas, jornais…
Confesso que para uma molecada entre 18 e 22 anos que não tinha quase porra nenhuma na cabeça era o máximo.
De repente estávamos nos preparando para lançar nosso CD com um show junto com um revival do Coke Luxe e meu pai morre um pouco antes de tudo isso acontecer, vítima de aneurisma.
Nessa época todo mundo desanimou um pouco, os caras que tocavam comigo queriam exigir um puta cachê para tocar e com isso eram poucos shows que rolavam, parte da banda já estava querendo fazer outro tipo de som e eu queria abraçar os lances rockabilly do meu pai porque não queria deixar que ele fosse esquecido. Fiquei muito atordoado nessa época, era meu último ano da faculdade, tinha perdido meu pai, meu irmão menor estava tendo problemas com drogas, foi uma merda total e eu acabei deixando de lado um pouco o lance de fazer psychobilly, de falar sobre morte, desgraça, etc…
Apesar de continuar curtindo as bandas, a Krents foi por água abaixo. Depois disso não nos reunimos mais e demos continuidade em outros projetos.

Mas a banda voltou no final dos anos 90…
Sim, tentamos reatar a Krents novamente com uma molecada do prédio que era maluca pela banda, mantive a base com meu irmão, o Leandro (guitarra solo) e dois moleques que tinham no máximo 18 anos, um deles inclusive é o Mí, vocalista da banda Glória, mas ao mesmo tempo não conseguia escrever mais nada, ficávamos tocando os mesmos sons, até que torrou o saco e paramos de tocar.
Nessa época eu montei outra banda Boogie’n Blues com meu irmão, o Leandro (guitarrista solo do Krents) e mais 3 caras. Era uma banda de rock & roll que só falava de putaria. Acho que foi a banda mais maluca que já toquei, era mais curtição do que tudo. Fizemos muitos shows, inclusive ao lado de bandas psycho’s, bebemos muito, aprontamos um monte e como sempre escutava: “tem que voltar o Krents, tem que voltar o Krents”. Até que uma maluca me perguntou se existia a possibilidade de reunir a banda para tocar em um festival em BH e me reuni com 4 dos caras, menos o guitarrista solo, que na época do Boogie’n Blues surtou. Foi só fazer esse show que o tesão bateu novamente e a febre de tocar com a Krents voltou, mas só eu quis continuar.
Conversei com o Igor (guitarra base), ele topou e chamou seu irmão Bruno que já tocava em bandas punks. Foi quando o baixo acústico entrou para o som da banda, com o Deviloki que já estava diretamente ligado à cena psychobilly.
Tinha o Fórum Psychobilly na internet que foi um puta lance para ligar as bandas antes de existir o Orkut e outras redes sociais. Pela primeira vez a banda tinha uma sonoridade totalmente psychobilly,
Mas manter uma banda psychobilly, não tem jeito, ou faz parte da cena ou espana, e foi o que o Igor que já estava fora faz tempo desse universo e o irmão dele fizeram.
E pela primeira vez abriu-se um espaço para dois legendários da cena psychobilly nacional entrar: Milton Monstro na guitarra (ex K-Billies e Kães Vadius) e o Fabio Koveiro (Kães Vadius), virou uma espécie de Krents/ Kães.
Isso durou até abrirmos o show do The Meteors no Brasil, onde pensamos “agora podemos deixar a banda morrer em paz, chegamos ao ápice…” (risos). Brincadeira, talvez o que desanimou mais uma vez tenha sido o lance de não criar nada novo e também a falta de ensaio, mas foi muito bom esse período da banda.

E então você parou um pouco?
Não. Eu montei outro lance “Run Devil Run” e um revival do Rockterapia (extinta banda do meu pai) com o Ronaldo guitarrista da banda punk Inocentes e fizemos mais uma porrada de shows juntos.

E então em fevereiro de 2011 vocês se reuniram para tocar no aniversário de esposa do guitarrista da banda. Como foi essa reunião da The Krents?
Pela primeira vez, desde 97, a pedido da esposa do Leandro nos juntamos na formação original “completa” para tocar. Foi uma festa fechada, só para convidados. Um lance legal, mas ao mesmo tempo estranho, porque nem todos éramos mais amigos como antes. Manja estas bandas que tocam juntos e os caras mal se falam? Foi bem por aí…
Mas todo mundo se divertiu e deu de tudo para fazer uma puta noite, eu me emocionei pra caralho porque no ano que acabamos a banda meu pai tinha falecido e também nascia a filha do Leandro e lá estávamos tocando novamente e dessa vez com a filha dele com 15 anos cantando uma das músicas com a gente.
Quando acabou tive aquele sentimento vazio e único, porque passou todas estas histórias e mais um monte pela minha cabeça. E dei continuidade aos projetos com o Ronaldo e o Run Devil Run.
Depois disso, comentei sobre essa experiência com o Rômulo e que, porra é um tesão tocar com os amigos, mesmo que seja um lance sem compromisso… É gostoso tocar, já desisti desse lance de pensar em um dia ganhar dinheiro com banda, porra é o meu futebolzinho, não vivo sem… Foi quando armamos de fazer de vez em quando alguns shows com o Krents.
Hoje existe bastante gente que curte psychobilly e muitos nunca tinham visto um show do Krents. A cena está mais viva do que nunca, hoje é muito mais fácil arrumar lugar para tocar, descolar sons, trocar ideias, convidar pessoas para shows, festas. Hoje tudo vem pronto…(bom, isso é para uma outra conversa)

E como a The Krents chegou à formação atual?
O Rômulo me ligou dizendo que tinha conhecido um cara, o Alan que morava em Jundiai e que já tinha tocado bateria em algumas bandas de hardcore e estava louco para tocar. Para minha surpresa o cara tocava pra caralho. Lembramos também do Lucas, guitarrista do Big Nitrons (banda psychobilly de Santos) que já tocava nos show algumas versões do Krents e vivia dizendo que estava a fim de tocar com a gente.
Por que não tentar fazer um show pra ver o que iria dar? Os ensaios ficaram ótimos, os caras tinham um puta pique, mas sinceramente eu tinha medo de me empolgar novamente e não virar, por isso combinamos de fazer um show único e foi du caralho, todo mundo saiu empolgado pra cacete com a sonzeira.
Infelizmente o Rômulo teve que se mudar para Madrid, mas dessa vez os 3 que ficaram estavam tão empolgado que a banda mal esfriou e rapidamente convidamos um dos melhores baixistas dessa linha psychobilly aqui de SP que é o Maniac Biffs (baixista do Bad Luck Gamblers) que já curtia e colava nos shows. Fechou o time, uma das versões da banda mais porrada e insana, com uma moçada com sede de tocar.
Me empolguei tanto com o resultado que antes mesmo de estrear com essa formação já finalizei 13 músicas novas e a cada ensaio o lance fica melhor ainda.

São 20 anos, Morto/Vivo. O que mudou e o que continua exatamente igual na banda?
Hoje a banda esta completamente diferente desde o dia que resolvi montar a banda, com arranjos diferentes, mas com a mesma proposta. Certamente quem comparar com o CD vai achar que é outra banda porque não tem mais nada a ver. Acho que voltamos mais doentes do que nunca, com sede de tocar e quebrar tudo.
O cenário musical também é bem diferente do que na época que começamos. Quem diria que muitas das bandas que escutávamos quando crianças hoje tocam no Brasil, os integrantes são nosso amigos e a molecada de hoje mais doente do que nunca??!?! Por isso nossos shows parecem com um hospício, ganhando vida através da Múmia do GG Allin.
Qual o recado para quem vai assistir à volta de vocês no Psycho Carnival?
Quem for para Curitiba vai poder escutar em 30 minutos um pouco dessa trajetória e ver que o som psychobilly do Krents esta mais vivo do que nunca.
Prepare-se para se converter ao Psychobilly.

Deixem os canais de comunicação (links, redes sociais e emails) para que possamos estar sempre por dentro do que rola no mundo da The Krents:

No momento posto algumas coisas no blog eddyteddy.wordpress.com e também uso o facebook que é muito útil para manter a galera informada. A idéia é assim que voltarmos de curitiba, finalizar as músicas novas, gravar alguma coisa e montar um site ou algo do tipo para deixar o pessoal a par das novidades…
Bom, tem trampo pela frente, mas um passo de cada vez.

 

Deise Santos

Carioca, jornalista, produtora cultural, baixista e guia de turismo.
Deise Santos é apaixonada por música – principalmente rock e suas vertentes -, literatura, fotografia, cinema, além de colecionadora – contida – de vinis.
Pé no chão e cabeça nas nuvens definem a inquietude de quem está sempre querendo viajar, conhecer pessoas e culturas diferentes.
Idealizadora do Revoluta desde seus ensaios com zines, blogs e informativos, a jornalista tem como característica a persistência em projetos que resolve abraçar.

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