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CORRENDO ATRÁS DE UM SORRISO: CRISTIANO ONOFRE

Cristiano Onofre é um jovem hiperativo: faz um pouco de tudo e quase não para em lugar algum. Sempre está envolvido em algum projeto ou lançamento, seja por intermédio da música, das artes plásticas ou mesmo pela literatura. Discos, telas, quadrinhos, livros, zines são alguns dos trabalhos desse professor de literatura.
“A invenção da dor”, seu mais recente livro, foi lançado durante a Feira Plana em São Paulo, com o primeiro lote esgotado. Nesse romance é contada a história do astro prodígio Rubinho, que tem uma vida turbulenta e acompanhada em rede nacional.

Conversei com Cristiano sobre esse lançamento e um pouquinho do muito que ele faz. Sem nenhuma dor.

Por Márcio Sno

 

Você atua em diversas frentes: desenhista, pintor, escritor, vocalista de uma banda de rock, é professor e ainda viaja pelo Brasil divulgando seus trabalhos. O que explica toda essa disposição?
Eu aprendi desde muito cedo que se eu não tomar as rédeas, ninguém vai tomá-las por mim, então a disposição que eu tenho pra fazer isso tudo é praticamente a minha única opção. Eu nunca quis ficar em casa esperando um telefonema de editora, gravadora e etc. Se eu tivesse escolhido esperar que me ajudassem, eu não teria feito nada até hoje.

E como é para conciliar tudo isso?
Conciliar isso tudo é algo que vem quase no automático, acho que de alguma forma as atividades que eu faço (música, quadrinhos, literatura, pintura…) acabam dialogando entre si e se tornando uma coisa só. Isso é bom, é bem mais fácil trabalhar com uma identidade.

Qual é a ordem cronológica de suas diferentes atuações? O que veio primeiro?
Não faço a menor ideia, eu faço isso tudo desde muito jovem. Mas se for pra chutar, eu diria que primeiro eu comecei desenhando.

Em qual dessas frentes se sente mais à vontade?
Me sinto à vontade fazendo tudo isso, mas de formas diferentes. Sempre me dedico mais ao que mais me satisfaz no momento. Por exemplo, agora faz alguns meses que eu não faço quadrinhos, porque simplesmente não me bateu a vontade. O dia que eu acordar com vontade de fazer uma tirinha, eu vou lá e faço, sabe? Sem ficar me pressionando, acho que as coisas fluem melhor assim.

Existe algum momento que uma se encontra com a outra?
Tudo se encontra e às vezes nem é a intenção, quem acompanha o meu trampo vai enxergar um pouco das letras do Parte Cinza no texto do “Invenção [da dor]”, um pouco dos quadrinhos nas letras do Parte e por aí vai…

Os seus trabalhos contém títulos como “A invenção da dor”, “Os quadrinhos mais sujos da face da terra”, “Fase ruim”. Essa pegada “meio negativa” é a característica de suas produções?
Parece que sim, né? (risos) Eu passei uns anos da minha vida muito cabulosos, acho que “negatividade” é a palavra que define mesmo tudo que eu sentia, pensava e a maneira que agia. Então, todas essas produções são resultado dessa carga toda. Não que hoje eu seja um cara PMA [positive mental attitude, citada na música “Attitude” do Bad Brains], mas consegui saí de muitos perrengues e olhar a situação com mais clareza. Ainda bem.

Os quadrinhos mais sujos da face da terra

“Os quadrinhos mais sujos da face da terra” (imagem abaixo) possui mais de 31 mil seguidores no facebook (acesse a página clicando aqui) . A que atribui todo esse público, uma vez que seu trabalho é independente e é muito difícil conseguir essa quantidade de curtidores?
Como praticamente tudo ali fala sobre tristeza e dores cotidianas, acho que é a identificação das pessoas que faz com que a página seja bastante curtida e compartilhada. Somos muitos numa mesma frequência e encontrar algo que faz a gente não se sentir tão só é um pouco analgésico, né?

E rola aquela coisa de “preciso tomar cuidado com o que falo, pois tem muita gente vendo” ou mesmo “sou um formador de opinião”?
Acho que eu tô longe ainda de ser um formador de opinião, viu? Volta e meia aparece uma molecada mais nova que vem falar comigo meio que numa relação fã-ídolo e eu já corto logo. Acho idolatria uma merda, prefiro que todo mundo entenda que sou uma pessoa qualquer com opiniões quaisquer que não influenciam em nada senão na minha vida e na vida de quem tá próximo a mim.

Seu primeiro livro, “Câmera lenta”, foi feito de forma quase totalmente “do it yourself”, com você à frente da produção, execução, divulgação e distribuição do livro. Esse novo trabalho foi lançado pela Prego e Deriva. Qual a diferença dos dois tipos de edição e distribuição?
A diferença começa já na edição e diagramação, o pessoal da Deriva fez um trabalho ótimo e a Prego, como sempre, tem me dado uma força incrível no que diz respeito a distribuição, divulgação e tudo o mais.

“Todo dia é o pior dia da vida de alguém” é a frase que aparece em quase todos os capítulos do livro. Quando seria o melhor dia na vida de alguém?
Sei lá. Quando foi o teu?

Não sei. Sou adepto ao que Odair José proclamou: “Felicidade não existe, o que existe na vida são momentos felizes”. Quais seriam os seus momentos felizes?
Concordo! Os meus são quando eu tô viajando, vendo meus amigos, conversando com minha vó, abraçado com meu gato. A gente toma muita porrada da vida antes de perceber que felicidade é algo muito simples.

Cristiano e Jaja? Felix no lançamento do livro na Feira Plana

Outra atração do livro são as ilustrações de Jajá Felix, como foi chegar ao nome dele e como foi a troca de ideias para chegar às artes finais?
Quando eu comecei a escrever o Invenção eu já conseguia imaginar tudo acontecendo sob os traços do Jarlan. A gente já se conhecia graças a esse meio quadrinhos/arte independente. Mandei uma mensagem pra ele convidando-o a ilustrar a parada e ele aceitou na hora. A única ideia de ilustração que eu tive foram a capa e a contracapa, o resto foi tudo baseado na leitura e interpretação que ele fez do romance.

“A invenção da dor” conta a história de Rubinho (leia a resenha clicando aqui), o mini-astro que passou por muitos maus bocados na vida e acabou em um hospício. Você se baseou em alguma pessoa específica para o seu personagem?
Eu tenho um fascínio gigantesco pela forma que as pessoas se comportam ao redor da fama e do sucesso. Pega as carreiras de pessoas tipo aquele cantor Rafael Ilha do Polegar e olha pro cara, só como um exemplo, ele é fruto de tudo aquela imagem que criaram dele nos anos oitenta. Usaram e abusaram do cara e hoje ele tá aí, correndo atrás do prejuízo. A sociedade pega as figuras, mastiga, esculacha e depois joga fora. Parece que esquece que tá lidando com pessoas só pra manter o espetáculo acontecendo. Debord* tinha razão.
*[Guy Debord, escritor francês, autor de “A sociedade do espetáculo” que questiona , entre outras coisas, o espetáculo de mercado do ocidente capitalista (o espetacular difuso) quanto o espetáculo de estado do bloco socialista (o espetacular concentrado). Fonte: Wikipedia]

Um personagem curiosíssimo é o limpador de cabelos. Fale um pouco mais de onde você tirou essa figura…
Escrevi esse capítulo quando eu tava passando por uma fase perturbada de um relacionamento antigo, aí você já viu tudo, né? Eu tava voltando pra casa e tudo que eu queria é não ter que encontrar com os fios de cabelo dela no lençol. A gente tem que dar mais atenção pro Chitãozinho e Xororó, bicho.

Puxa, não havia feito essa relação com “Fio de cabelo”… Você realmente aproveita muitas as informações para compor os seus trabalhos! No prefácio do livro você comenta que se inspira muito nas conversas alheias que ouve. O que mais te inspira?
Eu amo música sertaneja de raiz e música brega, deve ser por isso também.
A vida banal me inspira muito porque a banalidade é uma ponte invisível pro absurdo, pro caótico. Por isso gosto tanto de ouvir o que as pessoas estão falando por aí.

E o que as pessoas estão falando?
Tá todo mundo desesperado querendo passar por cima de todo mundo pra ter o tal do lugar ao sol.

Na obra de Saramago, as personagens femininas têm um papel muito forte, significativo e esclarecedor. Regina, Odete e Sofia têm essas mesmas características em seu livro. Como você definiria as mulheres em seu romance?
Eu tento sempre construir mulheres fortes e independentes em suas escolhas e decisões. No “Invenção” eu acho que as mulheres têm o papel de representar o mundo externo à mente fodida do Rubens.

Copiar Bukowski. Copiar Clarice. Você afirma isso com prazer. Até onde vai essa cópia? E por que a faz?
A gente tá em 2015, né? Todo mundo copia todo mundo, a diferença é que alguns assumem isso, outros não ligam (acho que eu me encaixo aqui) e outros supervalorizam a originalidade. Eu acho importante assumir influências diretas e permitir que isso construa nosso próprio trabalho.

No ano passado a sua banda, Parte Cinza, lançou o álbum digital “Fase ruim”. Fale mais desse lançamento e como tem sido a repercussão desse trabalho…
Foi o primeiro full álbum da banda. A gente toca desde 2012 e esse disco é um bom resumo de tudo que a gente fez nesse tempo. Depois que o lançamos fizemos uma turnê chamada “Pela Paz em Toda a Tour” e foi foda, além de tudo foi a despedida do Ernesto, que tocava guitarra na época e agora está viajando pelo mundo de bicicleta.

Recentemente em seu perfil no facebook você divulgou seu novo zine Xorinho e alguém pediu para você escanear e a resposta foi instantânea: “eu não. tem que comprar apoiar a cena”. Esse diálogo reflete bem como é essa relação do artista e público atual: tudo muito fácil na mão, sem grandes esforços ou, melhor, sem tirar um centavo do bolso. Talvez isso seja uma das grandes armadilhas do mundo virtual. Como fazer para que as pessoas desenvolvam aquele “espírito de cena” que rolava antes, quando as coisas eram mais difíceis?
Na verdade eu respondi isso em tom de brincadeira, eu to cagando pra “cena”.

Consegue sobreviver com suas produções independentes ou isso ainda está fora de cogitação?
No momento, eu tô enfrentando pela primeira vez esse desafio que é sobreviver só de arte e vou te contar: é tão difícil quanto falavam mesmo! (risos) Tem mês que dá pra pagar as contas e viajar, tem mês que a gente escolhe se almoça ou janta.

E não rola uma insegurança? O que motiva a continuar esse desafio?
Rola, né? Hoje em dia eu moro sozinho, tenho que sustentar uma casa e um gato. Não sou mais só um moleque que fica no quarto, na casa da mãe desenhando quadrinhos e postando na internet. Tem muito mais responsabilidade envolvida. Acho que esse perrengue serve de motivação também. (risos)

Você, professor, como observa os jovens de agora? Há esperança? A escola, por sua vez, deixa o aluno mais burro?
A escola é uma instituição falida desde que eu era criança. Imagina uma prisão que ensina matemática, literatura e ciências tentar disputar a cabeça do jovem com todas essas merdas de hoje em dia. Fora da escola, existe um universo de entretenimentos mais divertidos do que estudar e é assim que funciona, a engrenagem continua girando, o mercado gerando dinheiro e a população cada vez mais tapada e formatada como massa de consumo.
É dar uma olhada à sua volta e perceber que o mundo tá acabando aos pouquinhos e tá todo mundo tentando catar os restos.

Qual é o remédio para acabar com a dor?
Numa outra época da minha vida com certeza eu responderia só “morrer”. (risos) Mas hoje vou me dar ao luxo de te falar que o remédio pra dor tá no sorriso. O grande desafio é correr atrás de um.

Contatos
cargocollective.com/cristianoonofre
tumblr.com/anticris
facebook.com/anttticris
cristiano_onofre@hotmail.com

 

 

 

Deise Santos

Carioca, jornalista, produtora cultural, baixista e guia de turismo.
Deise Santos é apaixonada por música – principalmente rock e suas vertentes -, literatura, fotografia, cinema, além de colecionadora – contida – de vinis.
Pé no chão e cabeça nas nuvens definem a inquietude de quem está sempre querendo viajar, conhecer pessoas e culturas diferentes.
Idealizadora do Revoluta desde seus ensaios com zines, blogs e informativos, a jornalista tem como característica a persistência em projetos que resolve abraçar.

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