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Dead Fish: Vitória e polêmica

A banda Dead Fish acaba de lançar o álbum Vitória, pela Red Star Recordings, que mesmo antes de ser lançado já fez história na plataforma de contribuição coletiva Catarse, atingindo a meta de contribuição em menos de uma semana, chegando ao final do prazo de arrecadação com 400% da meta atingida e mais de três mil apoiadores. Após duas noites de shows lotados, no início de março, no Hangar 110 (SP), a banda foi alvo de uma polêmica causada por uma declaração do social media da banda, no twitter.
Nesse clima de lançamento, de pré pé na estrada para divulgação do álbum e de pedras ideológicas lançadas aos integrantes, através das redes sociais, é que o Revoluta bateu um papo com o vocalista 
Rodrigo Lima, para saber um pouco mais sobre o novo álbum, a nova fase da banda e as polêmicas em torno da declaração no twitter.

Por Deise Santos e Márcio Sno

Como você enxerga toda essa polêmica em relação à declaração publicada no twitter da banda?
É um momento ruim para você estar à esquerda, o governo que se diz à esquerda, se propõe a estar na esquerda, não pratica isso. É uma situação complicada, num momento ruim e tínhamos um cara pouco maduro para trabalhar com a “tubarãozada” do twitter.
Nem sabia que o twitter da banda estava sendo usado. Talvez isso tenha destruído um trabalho de alguns anos, com uma provocação barata, mas ao mesmo tempo a gente pontuou mais uma vez, acho que vai ficar pontuado.
É uma circunstância ruim pra você pontuar. Todo mundo pode se assumir como direita, como nazi, como neoconservador. Por que eu não posso me reafirmar e reidentificar, falando: “olha eu não estou nesse quadro, é um momento difícil, é um tempo complicado pro Brasil, mas eu acredito muito em tais ideias, com as quais eu quero pautar a minha vida”.
Realmente não sei o que se passa na cabeça das pessoas, acho que foi uma grande “cagada” do social media, chamar quem contribuiu com o crowdfunding e está à direita de otário, porque era só uma breve relação de consumo.
Só que as pessoas não podem me reduzir, elas não podem ter uma mera relação de consumo com algo que é mais amplo como são as expressões de arte e música.
Essa geração que está aí tem tudo muito na mão e acaba confundindo as coisas. Acaba que minha relação com elas é de produto para consumidor e eu me nego a isso. Eu também vendo um produto, eu também vendo uma imagem, não estou fora do sistema, absolutamente não, mas estou nadando com ele para fazer alguma diferença.
Então não me trate como mero produto. Não sou. Não serei.

Como é que foi a ideia de lançar o CD através de um crowdfunding? Foi uma ideia de reafirmar o espírito independente do Do It Yourself?
Não. Lá atrás não era isso não. Na verdade, nós, os velhos: eu, Nego (Alyand) e até o Philippe, éramos muito céticos. Tínhamos o exemplo do que aconteceu com o Raimundos, que deu certo com o trabalho do Denis Porto, mas a gente sempre foi muito autosuficiente, muito focado no que a gente queria e achávamos que abrir para um crowdfunding era abrir um precendente até certo ponto perigoso, não consigo explicar isso hoje, já passamos o crowdfunding, já batemos o recorde, já fizemos um baita álbum , lá atrás a gente não achava legal não.
Eu achava interessante, mas ao mesmo tempo achava bizarro que antes de uma pessoa ouvir o disco, ela já se comprometer a estar com ele. No fim das contas é uma baita lealdade, fomos privilegiados em tudo isso. Foi muito covarde até o cara que trabalhava como social media chamar alguém que comprou o nosso crowdfunding de idiota, me senti bastante mal quanto a isso.
Daí veio o André Pastura (empresário) e o próprio Fagner (hoje ex-social media da banda), dizendo que tínhamos respaldo, que tínhamos capital social para fazer isso. Vieram me falar dessas coisas e eu me sentia o cara mais quadrado, mais burro do mundo.
Agora, depois do crowdfunding, depois de ler um tanto de coisa, eu me sinto mais inteirado. Antes eu ficava falando: “meu! Vocês são loucos? os caras vão comprar antes de ouvir? Estamos há quase 5 anos sem lançar nada”. Achava isso incrivelmente absurdo.
Mas acabou acontecendo e a lição é dois pontos (sic) temos um legado, realmennte escrevemos a história durante esses 20 e poucos anos, a gente tem uma coisa que já é maior que os indivíduos aqui dentro, que é um legado. Legado musical, de postura, de batalhar no cenário independente, às vezes se sentindo um pouco sozinho, às vezes não. Mas acho que esse crowdfunding e o retorno ao independente desta forma foi uma baita lição pros véios. Se liga, você tem um legado, você tem uma história contada que poucas pessoas tiveram o privilégio de ter nesse país, principalmente em se tratando de música e de música independente, na maior parte do tempo.

Quando vocês começaram o Catarse vocês já tinham algum material rascunhado, alguma ideia do que seria o Vitória ou aconteceu tão rápido o processo de arrecadação que acabou que vocês não tinham o “coelho pra tirar da cartola naquele momento”?
Não, a gente já tinha boa parte do instrumental do disco. Acontece que foi o seguinte, o Philippe ficou na banda e tínhamos uma quantidade de músicas “x”, quando rolou a crise e ele resolveu sair, a gente decidiu deletar essas músicas.
Antigamente a gente decidia por maioria dentro da banda, era uma democracia de “maioria síntese” e isso sempre me aborreceu muito e aí depois da saída do Phil a gente decidiu se transformar numa democracia de maioria mesmo, ou seja, quem não concordar derruba a ideia. Se três concordarem e um não concordar a ideia não vai pra frente.
Decidiu-se então não se ficar com as músicas do Phil, chegamos a tocar algumas músicas que eu e Phill fizemos as letra, nos shows, mas elas não chegaram a ser gravadas.
E então quando o Ric entrou, o Catarse e o crowdfunding estavam num estado de projeto muito avançado e aí jogamos no pobre do peito do moleque: “tem um disco pra fazer e não temos tempo”.
E aí outras coisas aconteceram. Eu gravei o álbum trabalhando feito um louco, o que não aconteceu nos três últimos: Zero e umHomem Só e Contra Todos, só vivi da banda até ali. A gente lutou com coisas internas, lutou para ser rápido e criativo num tempo hábil. Eu atrasei o disco em dois, quase três meses, por só conseguir fazer os vocais no final do expediente. Mas eu acho que no final das contas, o Vitória é… que disco! Que disco! Acho um baita álbum, com letras muito na raiz, muito verdadeiras e com uma banda, com um frescor que fazia muito tempo que eu não sentia. O clima internamente é bom, a banda está afiada. Fora a produção, fora estar no El rocha (estúdio), fora estar com o Fernando Sanches, tudo isso fez muita diferença.

E como vocês chegaram ao Red Star pra lançar vocês? Um selo com uma tradição de lançar bandas de punk e hardcore nacionais e internacionais como Agrotóxico, Flicts, Rasta Knast, New Model Army, Devotos…
Eles nos procuraram e eu fiquei muito feliz. Isso é um baita respaldo para banda, eu tenho os materiais lançados pelo selo e quando nos procuraram, nós ficamos super felizes, porque a gente sabe que o Jeferson trabalha muito bem as bandas, não só no mercado brasileiro e é uma falha do Dead Fish não ter sido trabalhado, eu vejo assim – pode não ser uma unanimidade dentro da banda -, não ter sido trabalhado na Améerica do Sul, na Europa, apesar de ter ficado num selo que jogava um jogo mais brazuca, nós poderíamos ter sido mais trabalhado na América do Sul, na América Latina, na Europa, talvez até nos Estados Unidos, esse nós sabemos que é um mercado mais autosuficiente que eu nunca tive essa ilusão,mas enfim, estar no Red Star é basicamente perfeito. É um selo da cidade de São Paulo, podemos marcar um café com o cara do selo se tivermos algum problema ou marcar pra comemorar o lançamento.

Você falou que jogou nos peitos do Ric (Ricardo Mastria) quando ele chegou, pra fazer o novo álbum. E o Marcão, na verdade, é a primeira vez que ele contribuiu de fato com o processo de gravação e composição. Como é que foi trabalhar com essas duas novas mentes na banda?
Marco trouxe a escola do ABC, a escola pesadona, rápida, precisa, acho ele um baita baterista, ele facilitou muito o nosso trabalho. Eu lembro do Fernando Sanches gravando as baterias e depois ele rindo e falando: “cara, eu não vou mexer em nenhuma bateria. O cara fez tudo, eu não vou precisar mexer em nada, nem no volume.”
Eu fiquei impressionado. Eu fico feliz porque o Marco Antonio traz o soul da linha do trem, do ABC, que é um lugar que tenho uma baita admiração, não só pela cena musical de lá, mas pela forma mais aberta e mais gregária que as pessoas têm lá, as pessoas parecem ser mais cooperativas no ABC, posso estar viajando, eles tem as rusgas entre eles – entre os “As”, os “Bês” e os “Cês”, mas eu os vejo como uma sociedade industrial, que tem muito mais solidariedade do que muitas coisas no entorno, eu sinto isso do Marco Antonio. Eu sinto que ele joga pro time, ele está numa banda e veste a camisa, não está ali só pra tocar um instrumento. Ele está ali pra defender as cores da banda, as ideias da banda, isso é muito importante, fora o sensacional humor e as histórias maravilhosas. Você entra num estúdio, eu tinha horror de entrar num estúdio, sempre tive, e você tromba com o Marco Antonio matando uma bateria e contando as piadas mais ridículas, mais engraçadas do mundo. Você passa metade do tempo embasbacado e outra metade chorando de rir. Baita tesão você estar num estúdio com esse clima.
Já o Ric, foi trabalheira, esse moleque trabalhou horrores, tanto pra se encaixar na banda -ele é mais novo que a gente e tem ideias diferentes em muitas coisas -, mas pelo trabalho dele, pelo que ele fez, ele tirou nota um milhão. Ele é um monstro da guitarra, trabalhou feito um louco. Vinha aqui, fazia letra comigo, terminava, corria pra ensaiar com o Marco Antonio, ia pro estúdio ficava do lado do Fernando Sanches, dava ideia, a gente deixou ele bem solto. Às vezes acontece da gente deixar as coisas soltas e o cara faz uma cagada no twitter, mas às vezes a gente deixa um cara solto e ele faz um baita disco.

Como vocês chegaram ao título do álbum que é o nome da cidade onde a banda surgiu, mas com toda essa referência a São Paulo no material gráfico?
Esses dias eu tentei responder isso. Não sei se é explicável, se o titulo eu deva ficar dando explicações. É meio pra confundir mesmo. Vitória é o nome de uma cidade e Vitória também é um substantivo positivo, numa sociedade competitiva, numa economia de mercado onde existem vitoriosos e perdedores. E mais, sou um capixaba, nascido e criado, tenho sentimentos para com a cidade e trago para minha cidade, com a qual estou integrado hoje, que é São Paulo, minhas referências, neuroses, medos, tosquices, alguma coisa de complexo de inferioridade, travestido em complexo de superioridade, do capixaba. É uma miscelânea que não sei se deve ser explicada.
Essa letra foi feita em conjunto com o Álvaro Dutra, um velho amigo meu de Brasília que foi integrante de uma banda chamada Perdedores. Ele deu o titulo, e aí eu achei que era um belo título e o André Pastura veio e disse: “putz cara, essa música se chama Vitória, poderia ser o titulo do álbum”.
E aí gente desenrolou essa coisa. O polvo destruindo a cidade e o álbum se chamar Vitória. Tem mais esse elemento: o que que é Vitória? o que é ser vitorioso numa sociedade como a nossa? É lançar essa dúvida. Hoje eu estava lendo um livro do Frei Betto, e num trecho ele fala: “a dúvida é o que move, a certeza é o que finca e o que nos torna duro”.
Voltando à capa do Vitória, é justamente isso, tem referência da minha cidade, a ilha de Vitória, tem referência d’eu ser um cidadão paulistano – um paraibão adotado-, tem a referência de destruição de uma sociedade e estar escrito embaixo VITÓRIA e a letra da música ser um hino de resistência, de perseverança. Talvez seja tudo isso a explicação do título do disco, da capa do disco e se as pessoas quiserem escolher, escolham uma, escolham partes, escolham o todo.
Eu acho muito legal uma capa que não se explica dessa forma. Tão bem feita, Tão bonita, tão cheia de referências, tem grafite, tem os prédios da cidade de São Paulo.

Todas essas referências, foram captadas pelo Wagner Loud durante o processo de criação da capa, ouvindo o álbum ou vocês interferiram de alguma forma?
Nós interferimos o tempo inteiro, mas nós deixamos ele livre para criar. Já tínhamos a ideia do polvo. Por que um polvo vermelho? É um polvo pra diferenciar do polvo azul do crowfundig (risos). Mas isso me deu outras ideias, vai dar pano pra manga essa capa e eu acho isso muito legal. Prefiro deixar as pessoas serem criativas, dizer o que elas acham, se eu discordar eu vou chegar e falar que discordo, mas eu acho que isso deixa uma obra viva. Você ter tudo ali explicadinho, cartesiano, como se eu fosse o ‘Tio Rodrigo’, professor do segundo grau, é muito chato. É legal ter a dúvida, é até importante.

Como foi exercer a função de advogado tendo uma banda de hardcore? Rolou alguma angústia quando você se deparou com algo que ia contra o que você escreve e canta na banda?
Cara, eu acho que vida é paradoxal todo tempo. A gente luta com incoerências e paradoxos, a partir do momento que a gente abre a porta da nossa casa ou às vezes traz alguma coisa do mercado e coloca dentro da nossa casa. Eu consigo lidar com isso de forma OK. Sou humano, não acredito em Deus, não vou ser Odim, Iansã ou Thor, sou simplesmente humano e vou ter que lidar com esse paradoxo diariamente.
Só que estar num escritório de advocacia, lidando com procedimentos “comuns” para esse meio, me deram várias dores de barriga e foram dores que me fizeram entender mais, perceber mais o quanto você estar numa banda é talvez o melhor emprego do mundo. Também me fizeram perceber quanto uma vida de trabalhador, de escritório, é mais pragmática. Você não tem tempo de ficar divagando, você tem que ser prático e muito da prática do direito é complicado, eu nunca tive essa pegada de hierarquia, nem com quem trabalhava comigo e que supostamente era meu funcionário. E no direito é completamente ao contrário, existe toda uma estratificação que pra você aprender a se adaptar a isso você tem que aprender uma dança nova. No começo eu achei bastante instigante, confesso, fiquei bastante animado, as quebradas de cara que eu dava com o meu chefe, aquela coisa da hierarquia de não poder replicar o chefe de forma cabal e estar numa corte que existe a soberania do juiz, essa coisa de lidar com funcionário publico, que está vestido de Estado. Foi uma experiência boa, não digo que não foi estressante, por que tive que dançar uma dança diferente da que dancei nos últimos dez anos, mas foi uma baita experiência que por algum motivo não estava rendendo tanto, infelizmente. Eu tenho um desejo muito grande de voltar para a área de direito, mas nos meus termos, o que é bastante complicado.

É difícil imaginar você,que é uma pessoa impulsiva, estar numa situação em que é preciso andar dentro de um formato de leis pré-estabelecidas…
Eu lembro que na época da faculdade, eu tinha uns professores que eram meio subversivos e eles falavam: “nós não podemos deixar a operação do direito para pessoas conservadoras, equivocadas e egoístas, o operador do direito boa parte do tempo é um libertário, uma pessoa que acredita muito na liberdade e nos direitos individuais”.
É um equivoco a gente achar que o judiciário está certo do jeito que está: conservador e dando poucas respostas para a sociedade. Enfim, não que eu entrando ali no direito, eu fosse fazer rapidamente alguma diferença, mas saber surfar a onda de operar o direito seria uma grande coisa. Pena não ter rendido tanto, renderei um dia.

Você acaba de abrir uma editora de música e publicações. Fale mais desse trabalho.
Sim, abri com o meu ex-chefe lá do escritório. Direitos autorais, conexos e artísticos. Pretendo ampliar isso para outras bandas e para outras formatos que não a música, como livros e publicações. Vamos ver onde isso vai dar.

Voltando ao Vitória, vamos fazer um faixa-a-faixa diferente? Digo o nome da música e você dá uma palavra pra defini-la, ok?
Putz, sensacional, você vai me ferrar, mas vamo aí.

Como que eu vou te ferrar? você que escreveu tudo… (risos)
Uma palavra? Você viu a quantidade de palavras que eu falei numa mera entrevista?

Então isso que é legal, vou fazer você simplificar.
Tem que ser uma palavra né?

Uma palavra.

Selfegofactóide – Ocidente
Jogajogo – Terno
912 passos – Pragmatismo
Nous sommes lês paraibes – Nós
Sem sinal – Colapso
Lupita – Tentativa
Cara Violência – Hábito
Obsoleto – Eu
Kryptonita – Violência
Vitória – Questionamento
Procrastinando – Brasileiros
Sausalito – Thrash
Gigante e inseguro – Retrocesso
Pontilhão – Cotidiano

Deise Santos

Carioca, jornalista, produtora cultural, baixista e guia de turismo.
Deise Santos é apaixonada por música – principalmente rock e suas vertentes -, literatura, fotografia, cinema, além de colecionadora – contida – de vinis.
Pé no chão e cabeça nas nuvens definem a inquietude de quem está sempre querendo viajar, conhecer pessoas e culturas diferentes.
Idealizadora do Revoluta desde seus ensaios com zines, blogs e informativos, a jornalista tem como característica a persistência em projetos que resolve abraçar.

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