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Streetpunk italiano em favor dos animais e da diversidade

Como parte dos preparativos para sua primeira tour sulamericana (veja detalhes aqui!), Enrico, vocalista da banda italiana LOS FASTIDIOS, famosa por misturar assuntos polêmicos como Skinhead, Punk, vegetarianismo e direitos dos animais, nos respondeu a essa entrevista contando aos fãs brasileiros um pouco da sua história, realidade e expectativas para os tão aguardados shows em nosso continente.

Entrevista por DMNT
Fotos de Divulgação

Olá podem nos contar um pouco sobre como era a cena punk e skinhead na cidade de Verona quando vocês começaram com a banda?
Em Verona em 1991 não havia uma grande cena punk. O Los Fastidios nasceu exatamente para chacoalhar um pouco a cidade que andava adormecida e as pessoas naquele tempo estavam mais envolvidas com a cena pós-punk, o que sinceramente não era nosso estilo musical predileto.

E quais bandas influenciaram vocês naquela época?
Nós começamos mais escutando punk rock, ska, rock’nroll, desde as bandas de garage e ska da década de 60 até chegar nas bandas punks e de brit pop dos anos 80… Bandas como Cock Sparrer, The Specials, The Housemartins, Sham 69, Laurel Aitken e outros eram o que mais gostávamos de escutar…

E (a banda italiana…) Klasse Kriminale era uma dessas influências?
Sim, o Klasse Kriminale foi uma das mais importantes bandas italianas da cena dos anos 80 e 90… Naqueles anos o KK era mais que uma banda, tendo em vista que o vocalista Marco Balestrino publicou durante vários anos também um grande fanzine chamado Kriminal Class, que se tornou a verdadeira bíblia da cena nos anos 90.

E por que começar (o selo independente) KOB Records?
Em Verona a cena não era grande coisa naqueles tempos e as pessoas envolvidas na cena punk e ska tinham bastante dificuldade de encontrar bons discos desses gêneros nas lojas locais, então eu decidi abrir uma loja de rua voltada à música, 1996, que englobasse as cenas punk, ska, hc, oi!, mod e afins e em 1998 decidi criar o selo (que acabou tendo o mesmo nome da loja) que hoje em dia já conta com 130 lançamentos. Eu tomei a decisão de dedicar minha vida à música, o que não é uma escolha fácil, mas eu realmente acredito na música punk independente e, sinceramente, estou muito satisfeito e orgulhoso do meu trabalho. A loja fechou em 2011 (hoje em dia existe apenas a versão online www. kobrecords.org) mas o selo continua vivo e ativo, hoje em dia minha companheira Elisa trabalha comigo e nossos últimos lançamentos foram o nosso disco “Let’s do it”, Cantiniero “Resta a ballare” ( ska2tone/soul band), Skassapunka “Il Gioco del Silenzio” (ska punk band) and Lumpen “Il Nostro Giorno Verrà” (streetpunk).

Falando sobre esse assunto, aqui no Brasil nós criamos um selo independente, a Rebel Music Records, em 1999, e de lá pra cá passamos por inúmeras dificuldades para manter o selo na ativa, especialmente pelo grande problema da distribuição. Quais dificuldades a KOB Records teve que encarar para permanecer na ativa até hoje?
Na Itália também é muito difícil para um selo independente, a distribuição também é um grande problema… O final dos anos 90 foi uma época boa, tendo em vista que o punk rock havia se tornado bastante popular, mas na Itália as pessoas seguem mais a moda que a cultura em si, eu não diria que é o melhor país para a música independente… Nessa época nós desenvolvemos uma rede de selos independentes de diferentes países que incluía, além de nós, a Mad Butcher Records da Alemanha, Jimmy Jazz da Polônia e Insurgence Records do Canadá. Foi uma forma bacana de promover e distribuir melhor nossos lançamentos e nós continuamos colaborando com a Mad Butcher até o ano passado. Com eles nós lançamos dezenas de álbuns e muitas demos, que ajudaram várias bandas a divulgarem seu trabalho, foi realmente um ótimo trabalho. Hoje em dia, após alguns anos de muitas dificuldades, a KOB Records está crescendo de novo, como uma segunda vida eu diria e eu e Elisa estamos muito orgulhosos disso.

Vocês conhecem algo da cena punk e skinhead do Brasil e da América do Sul? Qual a sua impressão geral?
Nós conhecemos e gostamos de algumas bandas como Garotos Podres, Subversivos, Devotos, Os Replicantes, Juventude Maldita, Ocho Bolas, Curasbun, Komintern 43, Argies, Desorden Publico, etc… essas são as primeiras que me vem à mente agora e com algumas nós dividimos o palco no passado, são todas bandas boas e estamos ansiosos para chegar na América do Sul e conhecer mais sobre sua cena e suas bandas.

O que levou a banda a escrever letras sobre assuntos como direitos dos animais? No Brasil, muitas pessoas relacionadas à cena punk e skinhead se declaram orgulhosamente comedores de carne e similares… Vocês acreditam que eles se esquecem dos ideais que defendem quando o foco muda para os animais?
A causa dos direitos animais foi uma das primeiras em que nos envolvemos. Eu creio que a música pode destruir muitas barreiras e ajudar as pessoas a abrir os olhos e, ao mesmo tempo, penso que vivemos num mundo muito ruim, aonde o respeito pela vida humana é zero e o respeito pela vida animal é menor que zero. Eu tento em todos os nossos shows ser um porta-voz deles, dos animais, que são as primeiras vítimas desse sistema de merda. Eu tenho certeza de que mais respeito pelos animais significa uma vida melhor para eles, para todos nós e nosso planeta. Os animais têm apenas a nossa voz para defendê-los e não podemos permanecer calados, nunca é tarde demais para refletir sobre a situação deles e eu não acho possível lutar por direitos humanos esquecendo os direitos dos animais.

Muitas pessoas no Brasil continuam acreditando que todo skinhead é um nazista, eles não sabem quais as diferenças entre um skinhead e um bonehead… Você poderia nos dizer por quê se define como skinhead e qual a sua visão política?
Eu gosto de citar Roddy Moreno, da banda The Opressed: “ Se você é racista você não pode ser um skinhead”… a cultura skinhead é a primeira subcultura verdadeiramente mestiça, que misturou brancos e negros, é a primeira subcultura multiracial do último século. Ser skinhead significa, antes de mais nada, ter orgulho dessa mescla. Sobre nossa visão política, nós temos orgulho em dizer que o Los Fastidios é uma banda com uma postura libertária, estritamente antifascista e antiracista.


Continuando a pergunta anterior, muitas pessoas aqui também acreditam que todo skinhead é homofóbico… Vocês falam sobre esse tema nas suas músicas? O que a banda pensa a respeito disso?

Ser um skinhead antifascista significa ser contra toda a forma de discriminação, seja ela racial, religiosa ou sexual. Nós temos uma canção chamada Johnny and the Queer Boot Boys (a tradução seria algo como “ Johnny e os Garotos Gays de Botas”) que fala exatamente sobre isso, sobre nosso ponto de vista anti-homofóbico. Acreditamos que a diversidade enriquece e que todos devem ter o direito de escolher sobre sua vida e orientação sexual. Nesses anos eu conheci muitos punks e skinheads homosexuais, eles não são diferentes dos punks e skinheads heterosexuais, todos eles são punks, skins, são pessoas iguais e nós não nos importamos com a sua orientação sexual. Eu realmente gostei de ver recentemente uma coreografia de um grupo de torcedores antifascistas de futebol na Alemanha aonde havia um grande cartaz com a escrita A.G.A.B.(All Gender Are Beautiful ), que significa “Todos os Gêneros (sexuais) são Lindos”.

E qual a relação entre as culturas punk e skinhead na opinião de vocês?
Nós falamos sobre união, porque cremos que somente unidos podemos sobreviver. Essa guerra dentro da cena é estúpida e favorece apenas o sistema vigente, apenas unidos nós podemos construir nossa cena e nosso futuro.

E quais as principais diferenças que vocês enxergam na cena italiana punk / oi! de 1991 até agora?
Nos anos 90 havia mais paixão, mais entusiasmo, hoje em dia as redes sociais estão destruindo o verdadeiro espírito das ruas e as pessoas hoje vivem a cena pela tela de seus computadores e não nas ruas. As pessoas agora querem tudo fácil, as gerações jovens tem perdido a realidade, tendo em vista que hoje tudo se consegue com um clique do mouse ou uma ligação do celular. Eu, sinceramente, preferia antes, mas ao mesmo tempo acho importante olhar para frente e espalhar a mensagem e nossas emoções e história para essa nova geração, assim eles podem entender melhor o que e quem somos e de onde viemos. Aprender o passado para construir um futuro melhor, sem repetir os mesmos erros.

E a Máfia se envolve com a cena punk / oi! na Itália? Aqui no Brasil nós escutamos relatos de bandas no Japão envolvidas com a Yakuza e também de companheiros de bandas na Colômbia que chegaram até a serem sequestrados pelos cartéis locais, existe ou existiu algo similar a isso na Itália?
Na verdade não, na Itália a Máfia não se envolve com a cena punk /oi!.

Também se escuta muito aqui rumores sobre movimentos separatistas que tem o objetivo de separar o norte da Itália do sul do país… isso é verdade? Qual a opinião de vocês sobre isso?
Há alguns partidos e movimentos que desejam separar o país e nós acreditamos que essas pessoas realmente não entendem o problema, que o norte do país não tem uma história de unidade, sequer linguística (os dialetos locais mudam a cada 10 kilometros, por exemplo…). O que eles têm em mente na verdade é um alvo oportunista e financeiro, pois o norte é muito mais rico que o sul e eles querem abandonar essa região mais pobre à própria sorte… nós achamos isso uma palhaçada, é muito fácil defender o separatismo quando você vive no norte, em uma região rica. E nós também acreditamos que é estúpida essa discussão hoje em dia, nós odiamos fronteiras e acreditamos num mundo sem elas, sem bandeiras, aonde todos os recursos do planeta possam ser distribuídos por igual para todos os seres vivo, e não apenas entre os ricos.

A população italiana se sente preocupada com os recentes acontecimentos na Ucrânia? Você acredita que essa guerra possa trazer maiores consequências para outros países europeus como a Itália?
Nós estamos realmente preocupados com os acontecimentos na Ucrânia, e chocados desde que o caos explodiu lá com o massacre de Odessa em Maio de 2014, quando muitos camaradas antifascistas foram assassinados pelos fascistas ligados ao novo governo ucraniano. No momento, a Ucrânia é como uma bomba que pode explodir em outros países, e o problema é que no começo da guerra a situação era clara, os fascistas estavam apoiando o novo governo e os antifascistas estavam entrincheirados na região de Dombass, mas agora o nacionalismo se impregnou em ambos os lados, causando ainda mais confusão. Essa confusão se aplica também ao próprio movimento antifascista, que se dividiu entre os que apoiam a luta em Dombass e os que não à apoiam, porque agora não há mais apenas antifascistas lutando em Dombass, mas também já se sabe que há alguns fachos lutando junto a eles no front, então nós também não temos uma ideia clara do que se passa lá. Eu tenho tentado me atualizar e entender a situação, porque em minha opinião, essa guerra pode ser utilizada pelas potências em sua sede de poder, com a Europa e EUA de um lado e a Rússia do outro, manipulando a população. Nesse momento na Itália há bandas como a Banda Bassotti, que tem trabalhado organizando caravanas antifascistas para apoiar a resistência em Dombass.

E mudando de assunto, quais as suas expectativas para a tour Sul-Americana?
Estamos muito empolgados para essa tour, será nossa primeira vez no continente e estamos ansiosos para encontrar tod@s @s amig@s e bandas com quem mantemos contato há anos e também para conhecer tod@s @s nov@s amig@s e bandas que encontraremos aí. Será um trabalho duro, devido às grandes distâncias que vamos percorrer entre cada show, mas estamos certos de que será ótimo e que voltaremos muitas vezes ainda!

Muito obrigado Enrico, alguma mensagem aos fãs sul-americanos?
Nos vemos em breve companheir@s, Los Fastidios está chegando e tod@s @s antifascistas (sejam eles skinheads, punks, rude boys, rockers, mods, psychos, hooligans e etc…) são bem-vindos em nossos shows! Todos os shows serão uma grande festa com muita diversão, e não se esqueçam de nos trazer algumas cervejas geladas! Mantenha-se rude, mantenha-se rebelde, mantenha-se livre e mantenha-se sempre antifascista!!!

 

Confira o flyer da turnê sul-americana:

 

Deise Santos

Carioca, jornalista, produtora cultural, baixista e guia de turismo.
Deise Santos é apaixonada por música – principalmente rock e suas vertentes -, literatura, fotografia, cinema, além de colecionadora – contida – de vinis.
Pé no chão e cabeça nas nuvens definem a inquietude de quem está sempre querendo viajar, conhecer pessoas e culturas diferentes.
Idealizadora do Revoluta desde seus ensaios com zines, blogs e informativos, a jornalista tem como característica a persistência em projetos que resolve abraçar.

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