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Arte em folhas de papel: publicar é um passatempo

Contos, crônicas e poesias dispostos em A4, A5 ou A3, com dobraduras, ilustrações em preto e cinza ou aquareladas: assim é o mundo dos zines, onde a arte encontra lugar em tiras de papel e democratiza o ato de publicar.
Assim nasce a Tytyvyllus Publicações, editora alternativa, do casal Fabio Maciel e Patricia. Para eles, o ato de publicar é um passatempo, que não rende financeiramente, mas que possibilita o intercâmbio cultural dentro e fora do Brasil, de forma democrática.
Nessa entrevista será possível entender um pouco sobre o nascimento da Tytyvyllus Publicações em 2014 e sobre o material publicado por eles.

por Rafael Yaekashi

1- No começo do ano de 2014 eu recebo mensagens de interesse de materiais que nunca imaginaria vender aqui no Brasil, era o Fabio Maciel querendo escutar algumas novidades! Como está meu amigo? Escrevendo muito?
Primeiro, obrigado por abrir este espaço… Está tudo tranquilo comigo. Não lembro como eu achei o Karasu Killer, mas digo que foi muito bom conhecer você e ter acesso aos seus materiais. Alguns amigos falam que eu tenho um gosto muito estranho. Não sei muito bem o que isso quer dizer. Eu sempre procurei escutar bandas novas. A internet sempre foi um facilitador. Mas ter acesso ao material das bandas menos conhecidas por aqui só foi possível depois que te conheci. Fora que você me apresentou muitas bandas também. Não conheceria o Doperunner, por exemplo, sem o Karasu. Fora a amizade que foi sendo construída ao longo desse tempo. Isso é importante. Sobre escrever, acabou se tornando um vício. É uma terapia. Sempre escrevo. Mas não tenho nenhuma pretensão ou vaidade. Tenho meus pés no chão e estou sempre estudando, fazendo oficinas.

2 – Apresentem aos nossos leitores o que é a Tytyvyllus Publicações.
Música e literatura são minhas duas paixões. É onde gasto o meu dinheiro. A Tytyvyllus foi criada em 2014 por mim e minha esposa, Patrícia. É nosso passatempo. Nós publicamos zines literários. Contos, crônicas, poesias etc. Sempre textos curtos e acompanhados de ilustrações. Apesar de simples, nós temos uma preocupação muito grande com a qualidade do texto e com o projeto gráfico das publicações. Não existe uma periodicidade. Publicamos quando arrumamos tempo e quando temos algum dinheiro para investir. Bancamos tudo do nosso próprio bolso. É 100% DIY. 

3 – De onde saiu a ideia de criar uma editora aqui no Brasil em meio a essa era tecnológica que um dia destruirá a humanidade?
Não acredito no fim do livro. Nós publicamos fanzines e eles estão por aí desde 1930. As feiras de publicações independentes acontecem em todo Brasil; no mundo todo. Eu acho que nunca se publicou tanto. A tecnologia nesse contexto mais ajuda do que atrapalha. Eu consigo ter contato com pessoas que estão em outros estados do país, ou mesmo de outros países, como Portugal e Argentina. Sem a redes sociais, talvez isso não fosse possível; ou até seria possível, mas com muita dificuldade. Eu acho que nós é que vamos destruir a humanidade. As grandes corporações, os políticos e outras instituições e pessoas igualmente nocivas.

4 – Me conte sobre as publicações da Tytyvyllus, além de você quem são os autores que escrevem?
Os autores são nossos amigos. Nós temos muitos amigos que são ótimos escritores e ilustradores, mas nunca tiveram oportunidade de publicar por uma editora. Por isso os fanzines são legais. Qualquer um pode publicar. É uma mídia alternativa, aberta e libertária. Veja assim: poderíamos convidar um amigo que desconhecesse o conceito do que é um zine, por exemplo. Mas a partir do momento que ele passa a ter contato com essa forma de expressão, ele não precisaria mais de nós, ele mesmo poderia se publicar. Isso é muito legal. Mas voltando para a Tytyvyllus, nossos dois últimos zines foram um meu, que escrevi e ilustrei; e outro de um amigo de Caruaru, Gustavo, que escreveu poesias. Gustavo é vocalista do Cachorro da Duença e o zine dele foi ilustrado por uma amiga, Soraya, que fez todo o trabalho em aquarela. O primeiro zine que publicamos também foi meu. Tem o título de “Música do Diabo”. De tanto eu ler e escrever eu acabei descobrindo minha “voz”. Isto é, eu não tento escrever como esse ou aquele escritor. Acabei descobrindo o meu próprio caminho, minha própria voz, que é cheia de ironia. E o “Música do Diabo” me fez conhecer muitas pessoas. É o zine que mais vendemos e trocamos. Foi através dele, por exemplo, que conheci o Fred, da Não Conformismo. Outro grande amigo. Muito doido isso.

5 – Você também gosta de desenhar, quais as mensagens que você quer passar?
Prefiro falar que faço uns rabiscos. Eu tento… Nunca estudei artes visuais. Acho que comecei a desenhar quando era criança por causa de histórias em quadrinhos. Parei de desenhar, não sei a razão. Dos últimos anos para cá que voltei. Eu gosto muito de artes plásticas, quadrinhos, tudo! Estou sempre lendo. Acabo aprendendo alguma coisa. Mas eu acho que nunca tentei passar mensagens. Eu desenho e escrevo como uma válvula de escape. Para exorcizar meus demônios. É claro que tem exceções. Recentemente fui convidado por uma editora para ilustrar livros infantis. Nesse caso, meus desenhos não podee servir para exorcizar demônios. Aí sim tem uma mensagem que é dada em comunhão com o texto do autor. Nesse caso, eu tenho uma responsabilidade muito grande, diferente quando faço publicações independentes.

6 – Acredito que a música tem uma grande influência, me fale sobre essa importância e o que você tem escutado ultimamente.
Música sempre teve presente na minha vida. Até hoje eu tenho o primeiro vinil que comprei. Tinha entre 12 e 13 anos. Foi o álbum “Please Please Me”, dos Beatles. Meu primeiro grande show internacional foi aos 14 anos de idade: Black Sabbath, com o Dio nos vocais. Imagina isso pra um guri de 14 anos. Atualmente eu escuto muitas bandas punks da Suécia, Finlândia etc. Looking for an Answer, Cripple Bastards, Doperunner, bandas punks sul-americanas. Mas escuto outros gêneros também. Gosto muito de Jazz.

7- Quais tipos de materiais literários você procura produzir?
Eu gosto muito de contos e de haicais.

8 – Tytyvyllus é o seu trabalho? É possível viver com as publicações no Brasil?
Eu não vivo da Tytyvyllus. Não há lucro com as publicações. Nós até disponibilizamos os zines online. O pouco de dinheiro que arrecadamos com os zines, usamos para ajudar a pagar o custo de impressão, papel etc. E mesmo assim é muito pouco. Nós bancamos do nosso próprio bolso. Por isso não temos periodicidade e nossas impressões são limitadas. Eu tenho um outro emprego. Sou professor e bibliotecário. E agora, como fui convidado para ilustrar livros infantis, posso dizer também que sou ilustrador.

9 – Qual é a maior dificuldade de fazer Zines? Existe uma boa aceitação das pessoas?
Não vejo dificuldades em fazer zines. Qualquer um com uma folha de papel, cola, tesoura, revistas velhas para recortar, que escreva ou desenhe pode fazer um zine. Aceitação tem, mas acontecem mais trocas do que vendas. E é essa a essência do zine. Trocar. Colaborar.

10 – Você tem projetos para lançar as publicações em outras línguas?
Nós temos uma publicação que está parada. É de um amigo argentino. Queremos fazer essa publicação em português e espanhol. O que nos falta é tempo.

11- Você poderia citar nomes de Editoras e zines importantes para nós?
Para mim tudo é importante. São muitos autores independentes que gosto, como o Jajá Félix, o Éff, o Anarco Pato. O nordeste do país produz muito material bom. Em São Paulo, tem a Ugra Press, que pra mim é super importante na difusão de publicações independentes; também de São Paulo, o Márcio SNO, uma grande referência. É dele o documentário “Fanzineiros do Século Passado” e o livro “O Universo Paralelo dos Zines”. No Rio tem a Pipoca e a Beleléu. Acho que seria uma lista interminável. É até injusto citar uns e não citar outros. Mas tudo que cai na minha mão, tá valendo. Eu dou muito valor às publicações independentes.

12 – Deixe sua mensagem para nossos leitores.
Uma mensagem? Ler e publicar!!

Contatos
www.tytyvyllus.com.br
tytyvylluspub@gmail.com
foliveiramaciel@gmail.com
WhatsApp (21) 9-9998-3150

 

Deise Santos

Carioca, jornalista, produtora cultural, baixista e guia de turismo.
Deise Santos é apaixonada por música – principalmente rock e suas vertentes -, literatura, fotografia, cinema, além de colecionadora – contida – de vinis.
Pé no chão e cabeça nas nuvens definem a inquietude de quem está sempre querendo viajar, conhecer pessoas e culturas diferentes.
Idealizadora do Revoluta desde seus ensaios com zines, blogs e informativos, a jornalista tem como característica a persistência em projetos que resolve abraçar.

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