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DISTANÁSIA: uma analogia à vida contemporânea

Walter Rustuk, guitarrista e um dos integrantes da banda de Maringá (PR) Distanásia, bateu um papo com o Revoluta, para falar sobre a formação de banda há quase 10 anos, a cena brasileira e os planos para o futuro. Confira.

por Rafael Yaekashi

01-Fale um pouco da história da banda, discografia, primeiros shows. E qual é o significado do nome?
O embrião do que viria a ser o Distanásia começou por volta de 2005, quando eu (Walter Rustuk) e meu primo Denis Maka começamos a ensaiar alguns sons com a ideia de tocar hardcore, puro e simples, nos moldes do que era feito nos anos 80, contrapondo uma avalanche de bandas de hardcore melódico que havia em nossa cidade naquela época. No início foi bem difícil encontrar outras pessoas que se interessassem no som que pretendíamos fazer, mas no final de 2006 conseguimos gravar nossa primeira demo e fazer os primeiros shows, com Fernando CB no vocal, Walter Rustuk na guitarra, Ricardo Caverinha no baixo e Denis Maka na bateria, já com o nome de Distanásia, que significa “Morte dolorosa; agonia lenta”, uma analogia à vida contemporânea. Em função de algumas dificuldades e troca na formação da banda só lançamos um novo material em 2012, um split com a banda Reiketsu. Em 2014 lançamos o EP “Entre a Balança e a Espada”, que é nosso último lançamento, atualmente a formação conta com Vitor no vocal, Walter Rustuk e Bruninho nas guitarras, Junior no baixo e Denis Maka na bateria.

02-Todos os membros da banda têm trabalho ou vivem de música? Qual é a maior dificuldade de se ter uma banda no Brasil?
Todos da banda tem trabalhos paralelos, isso me parece algo natural na cena punk/metal nacional. Viver de música no Brasil não é algo fácil, especialmente música extrema, pois o público é bem limitado e quase não há espaço na mídia de massa. Eu particularmente não tenho isso como objetivo, de certa forma isso nos proporciona uma liberdade de criação maior, talvez.
Entre as dificuldades, a maior é o alto custo que envolve toda a produção e divulgação da banda, a dificuldade em fazer turnês e divulgar o material, especialmente para nós que moramos no interior, distante de grandes centros. O Brasil é um país de proporções continentais e com estrutura de transporte deficiente e cara, é normal ver bandas brasileiras fazendo turnês na Europa antes mesmo de turnês nacionais.

03-Do que se tratam os temas abordados em suas letras? Como é o processo de composição?
As letras da Distanásia abordam temas como a apatia social e cotidiana e os conflitos impostos por nossas vidas miseráveis. Normalmente escrevo as letras e trabalhamos os sons e a ideia juntos nos ensaios.

04-O 7”EP “Entre a Balança e a Espada” foi o último trabalho do Distanásia?  Como foi a produção dele e vocês ficaram satisfeitos com o resultado?
Desde o lançamento da nossa Demo estávamos na correria pra lançar um novo material, de preferência em vinil, pois é o formato que nós da banda mais gostamos de ouvir e acredito que o nosso público também. Tivemos alguns projetos que acabaram não rolando, até que em 2012 lançamos o split com o Reiktsu, o material teve uma aceitação bem legal e naturalmente surgiu a ideia de lançar um novo EP, só com músicas nossas.
No processo de composição das músicas sentimos a necessidade de mais um guitarrista e a banda passou a ser um quinteto desde então.
Gravamos as músicas em um estúdio local, a mixagem ficou por conta do Kiko (Reiktsu, estúdio Improviso) e a master por conta do Dan Randall (Mammoth Sound), a arte da capa é assinada pelo Hugo Silva.
Ficamos bem satisfeito com o resultado e o EP foi lançado com a ajuda de vários selos nacionais.

05-Quais são as maiores influências de vocês?
Como já foi dito, o Distanásia começou com a proposta de tocar hardcore simples e direto, mas mesmo em nossa primeira demo já eram notórias outras influências que convergiram para o som que fazemos hoje.
Em nossos últimos trabalhos as influências mais latentes são a cena crust sueca dos anos noventa, como Wolfpack, Driller Killer, Warcollapse e as bandas americanas Consume e State of Fear. No entanto nós temos um gosto musical bem semelhante que vai das mais variadas vertentes do punk rock e hardcore ao metal sem nenhum tipo de preconceito ou pudor estilístico, inclusive escutamos bastante rap nacional e outras coisas fora da música extrema (na verdade alguns grupos de rap são tão ou mais “extremos” que algumas bandas). Tudo nos influencia de alguma forma.

06-O que o crust punk/ hardcore significa em suas vidas? O Distanásia pode ser considerado um grupo punk/hardcore tanto na sonoridade como na postura? O que motiva vocês a prosseguir?
Acredito que o punk/hardcore e seus derivados, por terem desde sua origem um caráter contestador, não admitem regras ou comportamentos específicos, o mais importante é o auto questionamento. Ideias simples apresentadas pelo punk , como o “faça você mesmo”, podem ter uma influência extremamente positiva na vida de pessoas que talvez não tenham outros mecanismos de superação em uma sociedade excludente e opressiva. O Distanásia é essencialmente uma banda punk/hardcore, independente de suas influências musicais.
As coisas que nos motivam a tocar e ter uma banda, são as mais simples possíveis, poder nos expressar através do som e das letras, tocar com outras bandas, tomar uma cerveja e jogar conversa fora depois dos ensaios, acho que essas são as mais importantes.

07-Qual a diferença entre o hardcore quando vocês começaram e o que ele é hoje em dia?
Não somos tão velhos assim (rsrs), mas já vivemos algumas mudanças nessa cena desde que estamos nela. Hoje é muito mais fácil para as bandas gravarem e divulgarem seu som ou produzir outros tipos de manifestações artísticas através da internet, talvez isso também tenha ajudado na diversificação das bandas e miscigenação entre estilos. É comum ver bandas com uma postura e visual punk, porém com um som focado no black metal por exemplo, ou bandas da cena metal mas com ideal contestador e libertário do punk/hardcore.
O ponto negativo é que a mesma tecnologia que propicia esses benefícios, de certa forma também diluem as cenas locais e torna o público mais conformista e preguiçoso. Antes você ia a um show para conhecer novas bandas e pegar material, além do contato humano, claro. Hoje tudo está disponível através da internet, tornando a experiência dos shows ao vivo menos interessante para algumas pessoas.

08-Qual é a opinião de vocês sobre a cena punk/hardcore do Paraná e do Brasil em geral? O que tem de bom e o que tem de ruim. Há um apoio?
Não existe exatamente uma cena hardocere/punk no Paraná, rolam shows em poucas cidades, e não temos muitas bandas ativas. Normalmente fazemos eventos bem variados envolvendo bandas Punks, Metalcore, Grind, Thrash ou Death Metal na intenção de diversificar o público e tornar os shows mais frequentes e viáveis. No Brasil não vejo cenas locais tão fortes como antigamente, apesar de existirem ótimas bandas, pessoas e selos interessados por todo o país, rola bastante comunicação, mas o custo pra se descolar de um estado à outro impede uma relação mais estreita, infelizmente.
Apoio a cena punk/harcore ou extrema de uma forma geral, quase não existe, o que existe é uma organização horizontal da cena que se retro alimenta, isso é o que a mantém. As pessoas que vão a um show, normalmente também possuem banda ou ajudam a lançar outras bandas através de um selo, ou promovem seus próprios eventos, enfim, as poucas pessoas envolvidas devem participar ativamente (mais do que só escutar o som) para que o rolê todo aconteça.

09-Quais são os planos da banda? Novos materiais ? Alguma turnê pelo Brasil ou em outros países?
Atualmente estamos com alguns shows marcados e sempre correndo atrás de mais lugares pra tocar. Até o final do ano devemos lançar um split com o Distortion (banda crust de São Paulo), também temos o objetivo de lançar um split com alguma banda de fora do Brasil, mas não temos nenhum parceiro até o momento (caso alguém tenha interesse entrem em contato). Temos muita vontade de tocar em outros países das Américas e da Europa, mas nada programado por enquanto (novamente, qualquer convite, entrem em contato).

10-Que mensagem vocês têm a passar para os nossos leitores ?
Valeu pelo espaço!
Aos leitores, acompanhem as bandas locais, comprem material das bandas que vocês gostam, entrem em contato, divulguem e participem ativamente disso! Não existe cena sem público!

 

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Deise Santos

Carioca, jornalista, produtora cultural, baixista e guia de turismo.
Deise Santos é apaixonada por música – principalmente rock e suas vertentes -, literatura, fotografia, cinema, além de colecionadora – contida – de vinis.
Pé no chão e cabeça nas nuvens definem a inquietude de quem está sempre querendo viajar, conhecer pessoas e culturas diferentes.
Idealizadora do Revoluta desde seus ensaios com zines, blogs e informativos, a jornalista tem como característica a persistência em projetos que resolve abraçar.

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