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Satangoss: o monstro incontrolável do Crossover

Em um bate-papo descontraído, Bocaiúva, guitarrista e um dos vocalistas do power trio de thrash/crosssover Satangoss falou sobre a formação da banda, as mudanças na formação, a produção DIY do EP “Maldito Mundo Cão” que completa um ano de lançamento agora em dezembro, além das experiências que tiveram ao tocar no Sul do país. E para provar que a banda está com energia, Bocaiúva adiantou que o novo álbum já está em andamento (eles nunca param) e tem o nome provisório de “Estado Iminente”. Conheça um pouco mais sobre a trajetória desse trio carioca que conta ainda com: Chuva no baixo e vocais e Hardcore na bateria e vocais.

por Deise Santos
Fotos por Hevelin Costa

 

A banda passou por muitas reformulações, ficou parada por três anos e agora parece estar com mais força do que antes. Vamos rebobinar a fita? Como a banda começou em 2007?
A banda começou com as sobras dos riffs da Nega Odeth. Na época, eu tocava n’Uzômi , aí eu fui absorvendo um thrash que não cabia na Nega… Fui guardando riffs e depois toquei o projeto com o Hardcore. Na época, tivemos bastante dificuldade em conseguir firmar uma formação, o que impossibilitava qualquer perspectiva de gravação, sequência de shows e ta. Então em 2011 a gente resolveu encerras as atividades e cada um seguiu para o seu canto.

E o que fez com que a banda voltasse à ativa?
Depois que a banda acabou, eu meio que me aposentei, né? Acabei sendo convidado a tocar em uma outra banda, onde um tempo depois eu tive a oportunidade de trabalhar com o Chuva. E nessa, a gente desenvolveu um método de produção muito preciso, funcional e barato. Quando a gente saiu dessa banda, resolvemos continuar tocando e evoluindo a nossa produção e pegada. E para isso teríamos que chamar o Hardcore, é óbvio! Acho que a volta foi num momento muito certo, que foi quando nós finalmente achamos a formação ideal: um power trio com três vocais, muito thrash e muito hardcore, tudo junto e misturado!
Por falar em três vocais… Não ter um vocalista é opção ou escassez de “mão de obra” no cenário carioca?
Foi mais uma opção mesmo… Optamos por voltar diferente da primeira fase da banda em todos os sentidos, então colocar outro vocalista não soaria tão legal quanto soou voltarmos como um power trio.

Vocês optaram por voltar diferente, mas pode-se dizer que Satangoss é uma banda nova com DNA de banda velha?
Com certeza! Principalmente pela bagagem que cada um traz! É muita banda no currículo com muito som e experiências diferentes. Isso acabou influenciando muito o nosso som e a nossa maneira de trabalhar.

De quais bandas você está falando? Em quais bandas cada um tocou e quais bandas influenciaram vocês?
Vish, é muita banda hehehehehe. Eu toquei com a Velha Carcomidas, que evoluiu pra Nega Odeth, que evoluiu para o Satangoss. Fora isso, eu toquei com Uzômi e com Ataque Periférico. O Chuva toca no Arrested for Possession e no Krostah, mas já tocou no Repúdio e no Ataque junto comigo, além de alguns projetos com o Lapa Noise e o Godrape. O Hardcore, além dessas bandas onde tocou comigo, toca até hoje no Ted Palhaço que está gravando todas as 40 e tantas músicas que tem. Acho que todas as bandas nas quais a gente tocou influenciaram a gente, em vários sentidos. Mas tirando elas, as bandas que influenciam diretamente o som da gente são Black Sabbath, Slayer, Metallica, Napalm Death, Cannibal, Exodus, DRI, SOD, Exploited. Das brasileiras, temos o Korzus, Ratos, DFC, Krisiun, Sepultura. Tem muito mais coisa. A gente ouve muita coisa rápida e pesada. Fora isso, obviamente a gente ama Bad Religion e Bob Marley, que nunca faltam nas nossas jams.

Por que optar por manter o nome? E mais, o por quê do nome Satangoss? Vocês eram fãs de Jaspion ou só quiseram pegar a fama de “treteiro” que a personagem tinha para explicitar a voracidade da sonoridade que vocês produzem?
Resolvemos manter o nome porque ficamos com preguiça de pensar num nome melhor. O EP já estava pronto para ser gravado e ninguém decidia nada. Aí o Hardcore meio que impôs que a gente voltasse com o mesmo nome e a mesma logo, já que o resto todo tava diferente mesmo (risos). Quanto ao Satangoss em si, acho que todo cara da minha idade era fã do Jaspion naquela época! O Satangoss em si nada mais é que uma metáfora do mal. Como dizia o slogan do cara, ele “tem o poder de enfurecer os seres e transformá-los em monstros incontroláveis”, tal como a ganância, a ira, a inveja e todas as atitudes negativas que o ser humano não tem coragem de assumir e bota a culpa em alguém. Pois é ali que está o Satangoss. Satangoss é literalmente o mal entranhando dentro de cada um de nós e é sobre essa violência do homem contra o homem que a gente fala nas nossas letras.

As letras são escritas por quem? Como são feitas as composições?
A gente faz tudo junto, no final das contas. Eu acabo concentrando um pouco mais as composições, mas se for pesar no final, é tudo feito por todo mundo. Às vezes eu chego com uma estrutura de música na cabeça e alguns riffs, aí a gente arruma tudo. Às vezes me bate umas loucuras e eu faço a música toda sozinho. Quanto às letras, a gente procura escrever juntos, eu acho que é porque dessa maneira, a letra perde uma individualidade e passa a ter mais a cara dos três, do Satangoss em si. E acho que esse é o objetivo final: criar uma identidade para a banda que seja diferente das nossas e dessa maneira única.

O Maldito Mundo Cão foi gravado num esquema andarilho e obscuro, via homestudio, estúdio móvel e invasão de estúdios na surdina da madrugada. Conte mais como surgiu essa ideia de colocar em prática o faça-você-mesmo pra produzir e lançar o MMC:
A gente age de acordo com a grana que a gente tem disponível, que geralmente é pouca ou nula (risos). Em 2013, eu e Chuva desenvolvemos esse esquema de produção de baixo custo com nossos homestudios – Capim Navalha Homestudio, que é o meu; e Absnai Hellchords que é o dele – e passamos meses internados nesse meio tempo bebendo café, fumando e tocando. Quando o Hardcore chegou com a batera eletrônica dele em 2014, só agilizou o processo e fazer o álbum foi muito fácil e rápido. Chegamos num ponto de ensaiar e gravar por 4, 5, 6 horas e passar uma semana ouvindo os resultados para dar aquela lapidada no fim de semana. Se fosse que nem era nos anos 90 e inicio dos anos 2000, a gente estaria torrando toda nossa grana em estúdio, sem nenhum registro digno. Mas assim não! A gente otimizou nosso tempo e nossa produção. Isso sem contar quando a gente compõe longe e separado, cada um gravando e mandando suas partes. Dá um orgulho fudido falar disso porque foi algo que a gente fez simplesmente porque era o que a gente tinha na mão, sem precisar gastar nada, e deu muito certo.
E nesse embarque í de gravar e fazer tudo, eu fiz a ilustração da capa e a gente meteu bronca juntos pra fazer o clipe. No dia 10 de dezembro de 2014, quando a gente lançou tudo, deu pra ver que todo o trabalho de 11 meses deu certo e valeu a pena.

Ser um trio ajudou nessa empreitada de gravar um pouco em cada lugar?
Ser um trio facilita muito a nossa logística, é só entrar todo mundo num carro que a gente vai para qualquer lugar. Facilita também na hora da gente tomar decisões e tudo mais. A gente se fala todos os dias de “n” maneiras diferentes e por “n” motivos diferentes. São irmãos que o rock me proporcionou.
Em maio de 2015 vocês fizeram uma mini-tour pelo Sul do país. Como foi essa experiência?
Não tem como ser ruim, ne? hehehehehe Saímos dessa rotina escrava que a gente vive para viver 3 dias de puro rock. Fizemos 3 shows em 3 cidades: POA, Esteio e Campo Bom. O mais bacana de toda essa história de viajar pra tocar é ver gente que pensa e age como a gente, movimentando a máquina, fazendo a coisa girar. Os caras do FARPA são incríveis e o rolé em Porto Alegre no Signos Pub foi muito foda! Tocar em Esteio num parque aberto, numa cidade do interior, num anfiteatro, muitas pistas de skate, muito apoio do público mesmo com chuva…. cara… É inacreditável que uma cidade do interior do Rio Grande do Sul tenha um espaço e um evento da importância do Rock na Praça(Esteio) e no Rio de Janeiro a gente não tem nada nessa pegada… Naquele domingo eu tive o prazer de voltar ao Centro Cultural Marcelo Breunig em Campo Bom, mantido pelo Max e os heróis do Sistema de Mentiras. Lá, a gente fez um show simultâneo. Duas bandas no mesmo palco ao mesmo tempo, uma música de lá, uma de cá, uma banda chamando a outra… foi um lance inacreditável viajar pra tão longe da “megalópole” e ver uma atitude tão inovadora! Foi impressionante! A gente voltou de lá de cara com tudo aquilo! Temos até um registro do show de Esteio no Youtube. Ai pra completar, perdemos o avião de volta e ficamos lá mais um dia aproveitando as amizades (risos). Satangoss também é isso. E esse esquema de show simultâneo a gente ainda pretende agitar aqui.

Você falou com certa indignação sobre ir pra tão longe da megalópole e tudo funcionar. O que vocês acham que falta para o Rio de Janeiro ter uma cena mais forte e ativa?
Isso eu vou responder por mim… Eu acho que aqui no Rio de Janeiro o rock é extremamente marginalizado e visto com maus olhos. Não existe, por exemplo, o incentivo que a gente vê em outros lugares. Acho que pelo fato daqui ser “a cidade do samba” e o Carnaval ser a galinha dos ovos de ouro de tudo quanto é tipo de gente (de políticos a bicheiros, passando por prostitutas e comerciantes, incluindo traficantes), rola essa supressão cultural forte.
Por aqui, com toda essa dificuldade, é difícil ver alguém disposto a nadar contra a maré todos os dias. Tem muito roqueiro de temporada. E eu entendo porque, né? A molecada desanima e perde a perspectiva. Os picos são escassos, o público é descrente, o apoio é nulo… É difícil ter apoio pra realizar eventos. Então ou é faça-você-mesmo, ou não é. E não é todo mundo que consegue arrumar um local, equipamento, fazer divulgação… Ainda mais quando a verba é curta ou nula… Então, acho que para o Rio de Janeiro ter uma cena mais forte e ativa, tem que rolar uma mudança geral de atitude, onde as ações passam a ser em prol da máquina, e não de uma engrenagem específica. Só hoje com 34 anos, eu consegui um pico e equipamento para tocar as coisas nas quais eu acredito, no bairro onde eu nasci, cresci, vivo e me recuso a sair. Virou uma guerra pessoal, sabe? Eu contra todos. Mas eu acredito muito no do-it-yourself e na qualidade do trabalho que eu e a galera que me apoia nesse devaneio podem trazer para a cena da Ilha do Governador nos próximos tempos.

Neste final de semana vocês cairão na estrada mais uma vez, dessa vez para fazer dois shows na capital paulista e um no litoral (para saber mais informações sobre os shows, clique aqui!). Quais as expectativas de vocês para esses shows?
As melhores possíveis! Vamos tocar com os irmãos do Mollotov Attack no Zapata na sexta e descemos pra Santos para pegar uma praiana e fazer um rock com a galera do coletivo D-Beach Chaos. No domingão, a gente volta pra Sampa e toca no Ipiranga em outra festança pelo Coletivo Refuse/Resist. Vamos levar um merch novo e bacana pra fazer com que a coisa valha a pena financeiramente, né?

O Maldito Mundo Cão foi lançado há um ano. Há planos para lançar material novo? Quais os planos da Satangoss?
Esse ano as coisas ficaram meio nebulosas em termos de economia por causa desse pânico midiático, exatamente como a gente falou na letra de “Maldito Mundo Cão”. Isso também afetou a gente e os nossos planejamentos tiveram que ser adiados. Mas mesmo com tudo, a gente nunca parou de compor, então a gente já lançou o Maldito Mundo Cão com outro EP pronto. Já temos o nosso álbum “quase” pronto, ainda faltam umas letras, uns arranjos, umas lapidadas aqui e tal, mas a base dele tá pronta. O nome provisório é “Estado Iminente” e vai ser gravado no Superfuzz. Sem ‘littleshoe” dessa vez (risos). A gente espera um resultado superior e por uma série de motivos, não iríamos conseguir sem a ajuda do Elton e o Superfuzz. Ele era técnico de estúdio aqui na ilha, quando a gente ensaiava a primeira formação. Ele conhece muito bem a gente, o nosso som e a nossa proposta. É a pessoa certa pra fazer isso, com certeza!

Bom Bocaiúva, o espaço é seu. Deixe o recado como representante da Satangoss:
O recado é quase aula de física e o Davi do Krostah/Obscene pode explicar melhor, mas falando de mecânica geral, enquanto as engrenagens não rodarem em prol da máquina, serão apenas engrenagens com vida útil! E olha que eu não estou falando de união de bandas e nem nada, que cada um faça o seu corre! Mas em prol da máquina, em prol da cena. É nisso que a gente acredita e é nessa que a gente vai! Eu e Chuva estamos encabeçando o Capim Navalha, que não é nada além de uma instituição sem membros ou nomes, são só pessoas que ajudam e que acreditam na cena e no do-it-yourself. Já que temos esse espaço, vamos agradecer a todos os que acreditam e ajudam o corre: Hardcore, Bernardinho, Andre “Teleta” Cruz, Bruno Obelix, Yudi Barbaro, Michael Mamp, Wendell Lavor, Henrique Silva e Humberto “Zero” Batista. Essa galera aí, não tenho palavras pra agradecer.
Deisoca, muito obrigado mais uma vez pelo espaço! Longa vida à Revoluta! Maior prazer trocar essa ideia e botar o papo em dia.

Para conhecer mais o trio Satangoss, acesse:

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Deise Santos

Carioca, jornalista, produtora cultural, baixista e guia de turismo.
Deise Santos é apaixonada por música – principalmente rock e suas vertentes -, literatura, fotografia, cinema, além de colecionadora – contida – de vinis.
Pé no chão e cabeça nas nuvens definem a inquietude de quem está sempre querendo viajar, conhecer pessoas e culturas diferentes.
Idealizadora do Revoluta desde seus ensaios com zines, blogs e informativos, a jornalista tem como característica a persistência em projetos que resolve abraçar.

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