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Deserdados: duas décadas de serviços prestados ao punk rock

A Deserdados está prestes a lançar o DVD em comemoração aos 20 anos de estrada da banda e o Renato Lambão, vocalista e guitarrista, bateu um papo conosco, para contar um pouco sobre a gravação do DVD, com produção da 13P e lançamento  via Red Star Recordings, a experiência de estar em uma banda há mais de duas décadas, os projetos para o futuro, o fechamento do Hangar 110 onde foram realizados diversos shows da banda e as lembranças dessa trajetória dentro do cenário independente.
Além disso, os três integrantes falaram como começaram a ouvir punk rock e listaram as 40 músicas primordiais do punk rock mundial, na opinião de cada um. Sem dúvida ficaram muitas músicas de fora, mas o resultado é muito interessante e pode ser ouvido em três playlists. Com a palavra, Renato Lambão:

Por Deise Santos
Fotos por Rafael Melo e Daniel Silva

São 22 anos de estrada, com duas demos, três álbuns de estúdio, participações em coletâneas e um DVD prestes a ser lançado, qual será o próximo passo do trio?

O próximo passo eu acho que vai ser lançar um videoclipe novo. Já faz bastante tempo que estamos planejando isso, e já temos um amigo nosso interessado em fazer. No começo da banda a gente não se importava muito com isso e acabamos sempre postergando essas paradas, mas hoje a gente acha que é necessário.

No fim dos anos 90 vocês participaram de uma coletânea com bandas da Argentina, Peru e Bolívia. Não surgiu convite para vocês tocarem nesses países? Há possibilidade de uma tour pela América do Sul?
Há possibilidade sim. Temos alguns contatos que podem agitar isso pra gente. Acho que seria bem legal. Queria muito tocar fora do Brasil. Não faço muita distinção, tipo, se é aqui na América do Sul ou na Europa. Normalmente o pessoal sonha com a Europa de cara e eu não tenho nada contra, inclusive se rolar algo legal pra gente tocar lá, ótimo. Mas, particularmente, queria fazer uma tour na América do Sul.

Em mais de 20 anos, vocês já subiram ao palco com bandas nacionais e internacionais. Como você pode definir essas apresentações? Tem algum show que ficou marcado na trajetória de vocês?
Nossas apresentações sempre foram com muita energia. Tentamos passar essa energia pro pessoal e tal. Quando estamos no palco não nos sentimos superiores ao público. Sentimos que somos parte dele, ou seja, somos uma massa só, em sintonia. Vários shows ficaram marcados, mas, estes dias, eu estava lembrando quando tocamos a primeira vez com o Varukers, em 1998 ou 1999, no ABC Paulista. Tínhamos acabado de passar o som e depois fomos conhecer os caras da banda. O Rat disse que tinha visto a gente tocando e tinha curtido. Sei lá se era verdade ou se falou só pra agradar, ou se estava ficando já bêbado, mas, independente do que foi, aquilo deu um gás da porra e fizemos um show insano. Esse ficou marcado.

Como foi gravar o DVD de 20 anos? Muitas histórias vieram à tona? O material é um raio-X da estrada que vocês percorreram?
Foi emocionante gravar esse DVD comemorativo. Na verdade, na época a gente (eu principalmente) estava meio perdido, sem saber o que iria fazer para comemorar as duas décadas de banda. Pensei num EP, depois em um CD ao vivo, dentre outras coisas. E tínhamos a ideia do DVD, mas, na minha cabeça, tinha que ser tipo um pequeno documentário com a nossa trajetória e também falando um pouco da cena punk paulista dos anos 90 pra cá em paralelo e etc. Mas iria dar muito trabalho e demorar. O lance de fazer o DVD de um show foi mais do Favela e do Celo. Foi meio no susto, na correria, porque tinha aparecido a oportunidade de tocar no Hangar 110, e lá é um lugar bacana pra filmar. O Jeff da Red Star pôs pilha na gente e tal, coisa de menos de um mês tocamos lá, o Ivan da 13P, que produziu o DVD, fez um trampo de primeira, colocamos uns extras de imagens e entrevista e ficou bom pra caramba o resultado. Só lamento que, como foi uma coisa bem na correria, não deu para, por exemplo, coletar depoimentos, chamar ex-integrantes como o Danone, o Jamaica, o Alemão para participarem do show, etc.

Com o lançamento do DVD de 20 anos, vocês pensam em se organizar para fazer uma tour de divulgação? Vocês farão somente shows pelo Brasil ou pretendem ir para a Europa, por exemplo?
Pensamos numa tour de divulgação sim. O show de lançamento será no Espaço Som em São Paulo (veja informações, clicando aqui), e depois, em todos os shows que formos tocar, iremos fazer a divulgação. Fora do Estado e fora do Brasil aí precisamos nos organizar melhor, tipo, para a partir do próximo ano só.

Em qual momento da história de vocês, vocês notaram que o que faziam, fazia diferença para alguém?
Isso foi bem cedo, na nossa própria área, Jardim Iguatemi. Percebíamos que uma galera jovem ficou curiosa, porque não tinha muito essas coisas por lá (banda de garagem). Aí teve um pessoal que acabou seguindo a banda nos eventos, depois formando suas próprias bandas, escrevendo seus zines, se interessando pelo punk, poesia, cultura underground etc. Em um dos nossos primeiros shows, uns carinhas vieram falar que a banda era muito foda e que não era para pararmos de jeito nenhum. Depois , conforme a gente foi lançando nossos trampos, foi crescendo o número de pessoas que queriam sempre te falar algo do tipo “aquela música tem tudo a ver”, galera de banda falando que a gente os inspirou e tal, até professores usando música nossa em aula, essas coisas.

“Mais um dia”, último álbum lançado por vocês, saiu em 2013. Vocês já estão trabalhando em um novo álbum?
Nem parece que já faz todo esse tempo. Estamos compondo músicas, mas ainda está bem cedo para falar em álbum novo, porque estávamos com a cabeça no DVD (que atrasou dois anos). Mas este atraso do DVD até que não foi de todo ruim, porque no fim estamos lançando um trampo novo no ano em que se está comemorando quarenta anos de Punk e isso acaba sendo simbólico pra caramba. Álbum novo vai rolar na hora certa e vocês vão gostar.

Atualmente, tem se falado muito sobre feminismo e a figura feminina nos shows de punk e hardcore. Uma música de vocês, chamada “Fanzine”, coloca uma mulher como protagonista de propagação de textos relevantes. Na época isso foi feito como forma de reconhecer a figura feminina na cena underground?
Isso mesmo. Por exemplo, tá aí você, Deise, com o Revoluta há tanto tempo. O papel da mulher é fundamental no underground (e também fora dele, é lógico). Na época dessa música (meados de 2002) ficou bem na cara a participação das mulheres em um número bem maior do que nos anos 90, produzindo zines, tocando, organizando eventos, coletivos, páginas na internet etc. Mesmo assim, até dentro do punk você ainda encontra um ou outro cara que menospreza a capacidade das meninas, desrespeitam, são invasivos etc. É o machismo em todos os lugares, até dentro de uma cultura que preza pela igualdade. Mas isto eu vejo que está melhorando aos poucos.

Como vocês veem hoje em dia o consumo da música, com tanto acesso às redes sociais, plataformas de streaming e demais tecnologias, que algumas vezes esvaziam as casas de shows?
Eu gravava do vinil para a fita para ouvir no walkman indo pro trampo ou para a escola. E sabia que, apesar da qualidade do som ficar pior, eu teria a música em qualquer lugar. É mais ou menos a mesma ideia. Essas novas tecnologias podem e devem ser usadas para facilitar que a música esteja em todos os lugares a qualquer hora, afinal hoje é difícil você parar para “apenas” curtir um bom disco. O problema maior eu acho que não é a forma como a música chega até você, e sim o fato de você querer consumir tudo que é som de uma só vez, forçando a barra, às vezes escuta uma só música e já fala que não gosta da banda, às vezes escuta todas as músicas da banda só pra falar que conhece, e por aí vai. Aí não rola uma identificação, você tem as músicas com se fossem apenas informações. E, tipo, ter informação não quer dizer que você realmente conheça algo. Tem que usar essas ferramentas modernas sim, para pesquisa, para facilitar o acesso, etc… Mas também tem que existir a apreciação da música, curtir mesmo, prestar atenção e sentir, querer sair pogando. Aí, com certeza você vai sair do computador e do smartphone e ir a um show, vai perceber que faz parte da cena e tudo mais.

O Hangar110, uma das casas que abriu as portas para vocês diversas vezes, anunciou que 2017 será a última temporada da casa. O que vocês acham do fechamento do Hangar110?
Tivemos ótimos momentos lá, tanto no palco, quanto na platéia. Acho o fechamento de lá bem triste, mas entendo os motivos e não julgo. Muitos se perguntam o porquê desta “choradeira toda” em torno do fim do Hangar, sendo que outros picos também fecharam e não rolou tanta comoção. Deve ser porque lá é uma das maiores referências de espaço underground no Brasil. Se não fosse, não teria passado por lá tanta banda foda, histórica. Pico underground fechando nunca é bom. E quando é uma referência, pior ainda.

Olhando para trás, nesses mais de 20 anos de correria, qual o sentimento que o trio tem em relação às experiências vividas?
Satisfação. É como eu mais ou menos falei no DVD, tipo, considero a banda muito bem sucedida. Gravamos discos, vídeos, tocamos em uma porrada de lugar, conhecemos pessoas sensacionais, muitos se tornaram grandes amigos, temos nossa participação dentro do punk nacional com nossa arte, dentre outras coisas. E sinto que ainda temos bastante para mostrar. E estamos nessa porque gostamos de verdade, pode ter certeza.

Embarcando nas comemorações dos 40 anos de Punk, gostaria que vocês contassem como cada um conheceu o punk rock e listassem o top 40 músicas primordiais para o punk mundial:

Lambão: Conheci o punk rock através de uma fita cassete que chegou pra mim através de um cara da escola. Lembro que estava entre várias outras fitas de rock. Peguei para ouvir e a “fita punk” acabou ficando comigo. Nela tinha um monte de banda nacional gravada, mas não tinha a menor ideia dos nomes das bandas, pois não tinha nada escrito na fita. Só sei que gostei e me identifiquei muito. Fiquei escutando e só depois de quase um ano, fui descobrir que se tratava de Cólera, Replicantes, Garotos Podres, Mercenárias, Inocentes, etc… Depois disso veio Ramones e tudo mais. E depois veio o interesse em tudo que o punk tinha a oferecer além da música.
Citar 40 músicas primordiais para o punk mundial parece ser bem fácil, mas quando acaba a lista, você se liga que ficou um monte de coisa importante de fora. Então, foquei mais nas “antigueiras”:

1. Cólera – Somos Vivos
2. The Lurkers – New Guitar in Town
3. Inocentes – Garotos do Subúrbio
4. Sex Pistols – No Feelings
5. Repllicantes – Boy do Subterrâneo
6. Discharge – Fight Back
7. Vice Squad – Latex Love
8. The Skids – Into the Valley
9. Cockney Rejects – Bad Man
10. Lixomania – Violência e Sobrevivência
11. The Boys – Brickfield Nights
12. Mercenárias – Me perco
13. Lama – Iso-Pasi
14. Ramones – Judy is a Punk
15. Dead Boys – Sonic Reducer
16. The Clash – Complete Control
17. Dead Kennedys – Holyday in Cambodja
18. The Forgotten Rebels – The Me Generation
19. National Wake – International News
20. Circles Jerks – Wild in the Streets
21. GBH – Generals
22. Restos de Nada – Restos de Nada
23. Sham 69 – If The Kids Are United
24. Ratos de Porão – Não me importo
25. 999 – Let´s Face It
26. Detrito Federal – Se o tempo voltasse
27. The Avengers – We Are The One
28. Olho Seco – Botas, Fuzis, Capacetes
29. The Exploited – Dead Cities
30. Garotos Podres – Garoto Podre
31. Asta Kask – Psykiskt Instabil
32. The Saints – Stranded
33. 7 Seconds – We’re Gonna Fight
34. UK Subs – Warhead
35. Eskorbuto – Mucha Policía, Poca Diversion
36. Varukers – Protest and Survive
37. Stiff Little Fingers – Nobody`s Hero
38. The Adicts – Viva La Revolution
39. The Damned – New Rose
40. Cock Sparrer – Runnin’ Riot

Clique aqui para ouvir (quase) 40 sons para 40 anos de Punk por Renato Lambão – Deserdados ou confira a playlist logo abaixo:*

Favela: Conheci o punk através da música, inicialmente. Meu irmão mais velho apareceu em casa com uma fita K7 escrito “Punk Rock”. Quando coloquei pra tocar, era um pedaço do SUB (quase o disco todo). Depois desse dia a minha vida nunca mais foi a mesma. A identificação sonora e, principalmente, com as letras, que refletiam exatamente o meu cotidiano em Pirituba, fizeram com que eu tivesse cada vez mais interesse no Movimento Punk: participação em coletivos, manifestações, montar bandas, me tornar vegetariano e, claro, tentar mudar o mundo.

1. Agrotóxico – G7
2. Armagedom – Total Alienação
3. Bulimia – Punk Rock Não é Só Para o Seu Namorado
4. Cólera – Violar Suas Leis
5. Colisão Social – Pobre na Miséria
6. Dead Fish – Diarioamente
7. Dead Kennedys – Holiday in Cambodia
8. Discarga – Contra Cultura
9. Discharge – Protest And Survive
10. DZK – Somos Todos Inocentes
11. Esquizofrenia – Luz Que Nunca Brilha
12. Flicts – Canções de Batalha
13. Fogo Cruzado – Desemprego
14. Fugazi – Waiting Room
15. Garotos Podres – Garoto Podre
16. Grinders – Como é que Pode
17. Inocentes – Medo de Morrer
18. Invasores de Cérebros – São Paulo
19. Joan Jett And The Blackhearts – Activity Grrl
20. Lama – Paskaa
21. Limp Wrist – I Love Hardcore Boys
22. Lixomania – Violência e Sobrevivência
23. Minor Threat – Out of Step
24. Misfits – Some Kinda Hate
25. Olho Seco – Haverá Futuro
26. Operation Ivy – Knowledge
27. Ramones – Teenage Lobotomy
28. Rancid – Maxwell Murder
29. Ratos de Porão – Periferia
30. Restos de Nada – Classe Dominante
31. Sex Pistols – Pretty Vacant
32. Sin Dios – No Te Rindas
33. SKA-P – Vergüenza
34. Stiff Little Fingers – Alternative Ulster
35. The Adicts – Numbers
36. The Clash – London Calling
37. The Jam – In The City
38. The Rezillos – Flying Saucer Attack
39. The Runaways – Queens of Noise
40. The Undertones – Teenage Kicks

Clique aqui para ouvir (quase) 40 sons para 40 anos de Punk por Favela – Deserdados ou confira a playlist logo abaixo:*

Celo Rocker: Vamos para a história of my life… Em meados de 86, fazíamos sons de metal em São Miguel Paulista, quando alguém apareceu com um play do Ramones e um Sub. Fiquei com o Sub emprestado e fiquei fascinado com as letras, principalmente com Quanto Vale a Liberdade. Conheci a galera da punkids, pois estudavamos na mesma escola, mas não andei com os caras, só trocavamos ideias, curti a parte cultural do punk. Aí deu no que deu. Muitos anos depois ainda estou fazendo esse tipo de arte. Valeu Deise bjs. 

1. Chelsea – I’m On Fire
2. The Undertones – Get Over You
3. Sex Pistols – God Save The Queen
4. Ramones – Blitzkrieg Bop
5. The Boys – No Money
6. The Dickies – Manny Moe And Jack
7. X Ray Spex – Oh Bondage, Up Yours
8. Sham 69 – If The Kids Are United
9. The Clash – White Riot
10. The Damned – Smash It Up
11. The Stooges – I Feel Alright
12. Cólera – Quanto vale a liberdade
13. Cólera – Pela Paz em todo Mundo
14. Psycóse – 3ª Guerra Mundial
15. Fogo Cruzado – Delinquentes
16. Garotos Podres – Anarquia Oi!
17. Grinders – Skate Gralha
18. Olho Seco – Botas, Fuzis e capacetes
19. Anti-Nowhere League – Streets Of London
20. D.O.A. – Word War III
21. Stiff Little Fingers – Gotta Getaway
22. Stiff Little Fingers – At The Edge
23. The Exploited – Sid Vicious Was Innocent
24. The Exploited – Alternative
25. The Exploited – Let’s Start a War
26. Dead Kennedys –California Uber Alles
27. Rancid – Ruby Soho
28. Vice Squad – Defiant
29. Green Day – Basquet Case
30. Misfits – American Psycho
31. Deserdados – Rock de Combate
32. Dead Fish – Sonho Médio
33. Deserdados – Mau Exemplo?
34. Green Day – American Idiot
35. Agrotóxico – Nunca Mais Se Esqueça da Guerra
36. Flicts – Latinoamérica
37. Phobia Punk Rockers – Brasil ano 2000
38. Total Chaos – Hooligans Holiday
39. Vice Squad – Punk Rocker
40. Deserdados – Cidadão Venerável

Clique aqui para ouvir (quase) 40 sons para 40 anos de Punk por Celo Rocker – Deserdados ou confira a playlist logo abaixo:*

 

 

*Algumas músicas não estavam no Spotify, logo não foi possível incluí-las nas playlists.

 

Deise Santos

Carioca, jornalista, produtora cultural, baixista e guia de turismo.
Deise Santos é apaixonada por música – principalmente rock e suas vertentes -, literatura, fotografia, cinema, além de colecionadora – contida – de vinis.
Pé no chão e cabeça nas nuvens definem a inquietude de quem está sempre querendo viajar, conhecer pessoas e culturas diferentes.
Idealizadora do Revoluta desde seus ensaios com zines, blogs e informativos, a jornalista tem como característica a persistência em projetos que resolve abraçar.

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