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Subversivamente eles chegaram aos 20 anos de estrada

Duas décadas dedicadas a um coletivo que através do punk rock fala de suas convicções e amplifica questionamentos sobre a vida em sociedade e as mudanças que são necessárias para um mundo mais igualitário. Assim é a Subversivos, banda de punk rock do Nordeste brasileiro, mais especificamente, do Recife (PE). Batemos um papo com o guitarrista Tiago Mendonça, sobre a trajetória da banda, a influência da mesma na cena contra cultural e a recente mini-tour que fizeram por algumas cidades de São Paulo.

Por Deise Santos
Fotos por Keulin, Julitos Koba e Evandro*

 

 

Em duas décadas, o que a banda aprendeu com a cena contra cultural?
Por mais característica e particular que seja e por mais construção ou peso histórico que uma cena de uma localidade possua nada é 100% estático. Tudo pode sofrer impacto ou influência de uma força de atuação. É sob essa perspectiva que pensamos ser importante que cada banda e cada coletivo progressista ou antifascista busque estar ativo, saudável e consciente de que nos tempos atuais onde as ameaças conservadoras saíram de seus armários e esconderijos, estando cada vez mais nas ruas, nós temos nosso papel de conscientização e argumentação nos nossos campos de atuação, para dizer o mínimo.
Em específico à cena contracultural em que estamos inseridos, desde o início e com o passar do tempo, a Subversivos buscou ser uma banda cada vez menos sectária com relação a subdivisões meramente musicais, comportamentais ou contraculturais. Obviamente (e inevitavelmente) nós possuímos a nossa própria identificação com uma ou outra cena em maior aspecto (punk, street punk, hc, ska, reggae), mas não é de hoje que percebemos que se queremos atingir as pessoas de nossa sociedade, não podemos ficar apenas no gueto punk única e exclusivamente, afinal, existem outras camadas culturais da sociedade e toda a classe trabalhadora que sofre dos mesmos males que nós e precisamos compartilhar o que temos a dizer junto a esses e essas camaradas.

A Subversivos surgiu e atua no Nordeste do país. Como é a cena nessa região? Vocês conseguem notar alguma diferença na cena desde que vocês começaram a tocar? Se sim, quais as foram as principais mudanças?
Nós somos de Recife-PE. A região metropolitana de Recife (envolve Olinda, Jaboatão dos Guararapes, Paulista, Camaragibe e São Lourenço da Mata) tem uma conhecida trajetória de relativo agito cultural, então assim como nós estamos fazendo 20 anos de banda, existe uma série de outras bandas com relativo tempo de batalha no underground, do hardcore thrash/grind ao punk rock, passando pela cena metal também e principalmente por ritmos com elementos mais regionais. Podemos citar excelentes bandas locais de camaradas nossos como Ugly Boys (Punk rock), Guerra Urbana (Punk/D-beat), Nação Corrompida (Hardcore Thrash/Grind), Rabujos (Grind) e Saga HC (Metalcore), apenas para citar algumas e deixando de mencionar outras várias.
Falando da região, o nordeste é bem grande. Então até internamente o intercâmbio entre as cenas das grandes cidades nordestinas tem fatores complicadores de logística e distância para acontecer, mas ainda assim, acontece. Mesmo de forma ainda não tão frenética. Recentemente tocamos aqui em Recife num evento com expoentes do undeground regional como Facada (CE), Rotten Flies (PB) e Karne Krua (SE), além do GBH(ING), Ratos de Porão (SP) e Total Chaos (EUA).
Se for pra analisar a evolução da cena ao longo desse tempo, nós diríamos que existiram momentos de maior e menor movimentação e agito, mas sempre rolaram gigs. Acho que o momento atual é um momento de retomada, com várias bandas novas surgindo e bandas mais antigas voltando a dar um gás, agitando desde os subúrbios até o centro.

Na segunda quinzena de julho vocês fizeram uma mini-tour por cidades do estado de São Paulo e sabemos que os custos para deslocamento são exorbitantes, visto que as distâncias entre os estados são enormes. Como foi essa mini-tour? Há algum projeto de vocês tocarem em outras cidades do Sul e Sudeste do Brasil?
A ideia toda dessa tour de 20 anos (“20 anos de luta!”) foi concebida entre novembro/2015 e abril/2016, quando eu (Tiago) andava a trabalho em São Paulo. Um belo dia, lá no Estúdio Noise Terror, o Demente (vocal do Juventude Maldita) e eu conversávamos sobre a Subversivos tocar no Noise Terror e em São Paulo, assim como o Juventude subir pro nordeste e tocar em Recife. Um pouco depois nós percebemos que ambas as bandas fariam 20 anos em 2017 e isso era a “deixa” que precisávamos. A partir daí, tudo evoluiu entre ambas as bandas conversando e se organizando. Em maio desse ano fizemos a perna nordeste (4 shows) tocando em Caruaru/PE, Natal/RN e Recife/PE e agora fizemos a perna São Paulo (4 shows). Tudo no DIY, entre camaradas.
Dadas as nossas dificuldades com agenda em função de trabalho, temos feito a “20 anos de luta!” tour aos poucos, ao longo do ano. Além do Nordeste e São Paulo, temos conversas avançadas com camaradas no Rio de Janeiro/RJ e em Porto Alegre/RS. Esperamos ansiosamente que esses projetos se concretizem e possamos voltar ao RJ (depois de 9 anos) e tocar pela primeira vez no sul do país. A realidade é que não esperamos ganhar dinheiro algum com a Subversivos, todos nós temos nossos ofícios e mantemos esse coletivo ativo porque gostamos e sentimos que isso é necessário para nossas vidas.
Acerca dos shows dessa tour em SP, a aceitação foi ótima. Todos nós ficamos bem felizes que em todas as apresentações, sem exceção, muita gente chegou para conversar e elogiar nosso som ao vivo e nossa postura, além de termos encontrado novamente a galera que já nos conhecia de outrora, seja da primeira vez que tínhamos ido a São Paulo em 2008 ou da internet. No show do Hangar 110 tivemos a honra de ter o Mao (do Satânico Dr. Mao e o verdadeiro Garotos Podres) presente para nos ver, coisa que nos deixou bastante felizes, pois havíamos nos conhecido quando tocamos juntos em Fortaleza-CE, em 2013 e o cara sempre foi uma referência para nós. Além disso, dividimos os palcos com bandas excelentes como Excluídos, Cólera, Injetores, Filhos de Inácio, Fecaloma, Não somos nada e, claro, nossos irmãos do Juventude Maldita (que é uma banda que faz o punk rock acontecer).

 

Durante essa tour, vocês lançaram um split com a Juventude Maldita, o que você pode falar sobre esse material?
Ao confirmarmos a perna São Paulo da tour e por toda a simbologia dos 20 anos de ambas as bandas (Subversivos e Juventude Maldita), decidimos que tínhamos que registrar esse momento de alguma forma. Então resolvemos lançar um split dessa tour de 20 anos, o “20 anos de luta!”, contando com 8 músicas novas de cada banda. De nossa parte, ele contém 3 músicas novas que acabamos de gravar, mais 4 sons gravados ao vivo aqui em Recife no enérgico show que fizemos junto com o Ratos de Porão, GBH, Total Chaos e o próprio Juventude Maldita (além das outras bandas regionais citadas anteriormente), além de uma faixa bônus de nosso primeiro disco. Primeira tiragem de apenas 250 cópias!
A arte do disco foi pensada de modo a unir o background político-ideológico original de cada banda, de forma a demonstrar a união entre o pensamento anarquista (preto) e socialista (vermelho) configurando o antifascismo como bandeira principal, coisa que pensamos ser bastante essencial nesse momento em que vivemos, mais do que nunca. Ademais, a arte tanto do disco quanto da tour também é configurada pela junção de um revólver (que remete ao logo do Juventude Maldita) com a foice (um dos elementos que constitui nosso logo, junto com o braço do Baixo).

 

Há quase 10 anos vocês embarcaram numa tour para a Europa. Conte um pouco como foi essa experiência. O que vocês trouxeram de aprendizado da passagem pelo velho continente? Há planos para fazer outra turnê por lá?
Da nossa formação atual, ¾ de nós vivemos essa aventura que foi ter ido pra Europa. Aconteceu entre abril e maio de 2010 e tocamos em 7 países (Alemanha, Eslovênia, Suíça, Itália, França, Espanha e Holanda). Certamente foi uma das melhores experiências que tivemos tanto em nível pessoal quanto coletivo, desde o aprendizado com os preparativos que se iniciaram pouco mais de um ano antes, onde arrumamos os shows todos praticamente via myspace, até a própria rotina da tour, na qual alugamos um carro onde nós mesmos nos revezávamos dirigindo a turnê inteira. No frigir dos ovos, aconteceu um total de 19 shows em 43 dias e mais de 14.000km rodados.
O principal aprendizado foi o de ver cenas com mecanismos de auto-sustentação e autogestão mais longevos e desenvolvidos do que os que estávamos habituados no meio underground que vivíamos. Tocamos em diversos clubes e squats dos mais variados tipos (desde antigas agências bancárias abandonadas na Holanda, até ocupações em antigos complexos militares, abrigos antibomba e piscinas públicas iugoslavas na Eslovênia), bem como tivemos contatos com produtoras estruturadas por diversos indivíduos com anos de vivência do punk rock e sua rede de sustentação e agitação. A contracultura punk é uma grande rede.
Vontade de voltar sempre tivemos, mas nossa rotina hoje em dia exige grande sacrifício com trabalho, família e demais obrigações e uma turnê dessas exige muita determinação, organização e planejamento financeiro. Vamos ver como se darão os próximos passos após esse ano de 2017, a tour de 20 anos e o próximo disco que estamos prestes a lançar.

Vocês já tocaram em festivais que são referência no Nordeste, isso ajudou vocês a promoverem a banda e as ideias que vocês abordam em suas letras?
De alguma forma, sim, teve sua importância porque coloca mais gente prestando atenção em você por algum tempo. Mas não foi algo essencial ou que mudou a trajetória do Subversivos por completo, nem nada disso. Ter uma banda underground no Brasil já é difícil, aqui pode ser muito complicado. Não é uma aparição num festival que vai te transformar num fenômeno cult ou coisa do tipo, diríamos que o mais importante é o nível de atividade e a estrada que uma banda possui. Isso sim é que pode ser um bom indicador que vai te abrir portas e até quem sabe te levar a outros lugares. Mas no final das contas uma banda tem que rodar, sair de casa e atingir as pessoas. Não fizemos isso tanto quanto gostaríamos ao longo desses 20 anos, mas certamente fizemos o quanto nos foi possível e sim, foi bacana ter tocado em festivais como o Abril Pro Rock 2001 e o Festival de Inverno de Garanhuns, por exemplo, mas aqueles projetos que nós mesmos metemos a mão na massa e fizemos a correria (ex: mini tour em SP 2008, XXI EIJAA Encontro Internacional da Juventude Antifascista e Antiimperialista – UFRJ 2008 e turnê europeia em 2010) foram tão ou até mais importantes.

As formas de se consumir música mudaram muito nos últimos anos. Vocês acham que isso empobreceu a cena contra cultural?
Mudanças vão ocorrer ao longo do tempo, dado o desenvolvimento tecnológico e as influências das forças de impacto no meio cultural, musical e comportamental que o capitalismo nos impõe. De início, a “revolução” na forma de consumo da música que ocorreu de 15 anos pra cá, por ter sido uma grande novidade, gerou impactos positivos e negativos, mas o mais importante é que agora as bandas já estão com total capacidade de adaptação às novas formas de propagação de conteúdo, haja vista que essas mudanças já não são mais tão novas como eram uns anos atrás. De início isso pode ter tido um impacto negativo, mas o entendimento da nova realidade e a consequente ação em cima dela cedo ou tarde acontece, é uma questão de percepção das possibilidades. Se hoje não se obtém retorno financeiro com venda de CDs, outras possibilidades se abrem como o retorno do vinil como mídia atrativa, o download remunerado, os crowndfundings, as lojas virtuais, por exemplo. O importante é focar na propagação do conteúdo de forma saudável para o coletivo.

O acesso excessivo a materiais enriquece ou empobrece um movimento na opinião de vocês?
Em nossa opinião isso acaba sendo um pouco ruim na formação do novo público. Pessoas nascem e morrem todos os dias, então as primeiras percepções de um jovem sobre um assunto ou um movimento e o valor que ele ou ela atribui a isso hoje, em função dessa abundância desenfreada de informação, não é mais a mesma de alguns anos atrás. E acreditamos sim que é preciso haver esse encaminhamento natural e positivo do contato da contracultura com a juventude.
Claro que existem outros fatores determinantes para o fortalecimento de um movimento para além dos primeiros contatos que um jovem possui com uma cena ou movimento, a existência de uma vida contracultural perene e de shows no contexto em que o/a mesmo(a) vive também ajuda bastante. O acesso aos conteúdos no final das contas, mesmo excessivo, ainda é melhor do que o não acesso, e o fortalecimento de uma cena local, no nosso modo de ver, também são determinantes para o engajamento de novos indivíduos e a manutenção dos mais antigos, de forma que haja um estabelecimento orgânico e natural do movimento.

Desde o início, vocês colocaram como objetivo não atuar somente como banda. Há alguma atividade desenvolvida por vocês para colocar em prática essa ideia?
Desde o início a Subversivos nasceu a partir de jovens que eram militantes, seja de partidos ou organizações. Por todos os 20 anos de banda, seja em menor ou maior grau, isso aconteceu. Nos primeiros 10 anos, o coletivo tinha membros ativos com um background mais marxista-leninista. Mas, abraçados com o antifascismo desde sempre, ao longo desse tempo cabeças diferentes passaram pelo coletivo, desde indivíduos que muito agregaram mesmo não sendo militantes de organizações políticas, até gente de identificações ideológicas anarquistas e também camaradas de cunho mais trotskista. O importante é trazer forças alinhadas com a ideia de fomentar uma mudança para melhor da realidade que nos cerca. Fazemos um pouco disso através do punk rock, mas sabemos que não é apenas dessa forma que o mundo vai ser modificado.

* Créditos das fotos:
Foto Preto e Branco do topo da entrevista por Keulin, no show em Natal (RN), em maio/2017;
Foto Preto e Branco por Julitos Koba, no show do Hangar 110 (SP), em julho/2017;
Foto Colorida por Evandro, no show em Recife (PE), em junho/2016.

Deise Santos
Carioca, jornalista, produtora cultural, baixista e guia de turismo. Deise Santos é apaixonada por música - principalmente rock e suas vertentes -, literatura, fotografia, cinema, além de colecionadora - contida - de vinis. Pé no chão e cabeça nas nuvens definem a inquietude de quem está sempre querendo viajar, conhecer pessoas e culturas diferentes. Idealizadora do Revoluta desde seus ensaios com zines, blogs e informativos, a jornalista tem como característica a persistência em projetos que resolve abraçar.

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