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OdioSocial: a visão das ruas transformada em punk e hardcore

Punk rock e hardcore “rueiro, das ruas e periferias do Brasil”: assim é definido, pelos integrantes do power trio OdioSocial, a sonoridade que eles fazem. A banda, surgida na periferia de São Paulo, acaba de completar 17 anos de atividade, com algumas mudanças na formação e alguns kms de estrada na bagagem. Prestes à embarcar na segunda turnê européia, a banda bateu um papo para contar um pouco da sua história e os planos para o futuro.

Por Deise Santos
Fotos de divulgação*

 

O que levou vocês do lado de ouvintes e curtidores do som punk e hardcore, para o lado de músicos? Como surgiu a OdioSocial?**
Ser o garoto da escola que tocava violão nunca foi um mérito para mim no começo da minha pré-adolescência, pelo contrário, isso me afastou muito das figuras “legais” da escola (ainda bem, ‘risos’). Mas isso no início era ruim na verdade, ninguém gostava daquela porra de violão somente eu vivia com aquela parada, quase que algo compulsório, tipo o “nóia” do violão. Eu me expressava fazendo minhas músicas ali,
isso desde uns 13/14 anos. Ouvia música, pois meu pai sempre gostou, então ouvíamos sem pretensões. Música para mim sempre foi algo natural, uma parte de nós, uma extensão da minha vida. Domingão ser acordado as 09:00 da manhã com meu pai soltando o braço da vitrola em cima de um LPS dele, era corriqueiro (‘risos’)
Tá ligado o barulho que faz??? Espero que ninguém faça isso, mas meu pai fazia. Gosto de música por causa dele.
A OdioSocial começou num dia de agosto do ano 2000, foi tudo muito podre (como é até hoje), ainda sinto aquele clima. Um amigo meu muito antigo, chamado Leonardo me convidou para ver o “primeiro” ensaio da banda que ele ia formar ali na rua que ele morava (na rua de baixo da minha casa). Aí eu colei, fui o primeiro a chegar, risos.
Eu também tinha guitarra, uma tonante modelo Les Paul que eu comprei por 80 reais no ano de 1998. Eu já tinha um projeto de banda com outros dois amigos o nome era N.D.A., nunca saiu do papel.
Mas no ano 2000 eu estava no quintal do amigo Leonardo para ver o ensaio dos caras que enfim chegaram, todo mundo no visual já. Eles tinham um baixo, uma bateria (horrorenda) e uma guitarra (o melhor instrumento de todos disponíveis ali), era de uma garota chamada Monalisa, mas ninguém sabia tocar. Ninguém de verdade, nada, nem um acorde.
Eis que ali mesmo houve uma pré-desistência de formar a banda (risos). Caramba eu louco para ouvir um punk rock estilo Ramones pois sou fã do RAMONES. Eis que o meu amigo Leonardo já conhecia algumas composições minhas,sabia que eu tinha um caderninho cheio de letras,e detalhe eu “sabia tocar” guitarra (´risos´).
Eu fui até a minha casa que era a 5 minutos dali e antes dos 5 minutos eu já estava com a guitarra ligada. Detalhe: era tudo ligado em um ampli somente… Baixo, Guitarra, Voz (risos).
Detalhe saiu som porra FUDIDO, o baixista no início se chamava Vitão, este virou baterista pois sabia fazer o famoso (tupa,tutupa), punk rock puro. O Thiago que ia ser vocal foi para o baixo e Leonardo que era baterista, pois a bateria era dele, foi para a voz porque não tocava porra nenhuma na época.
Monalisa ficou na guitarra mas em sua breve tentativa desistiu e eu com minha “tonantera detonação do planeta”, comecei a passar as músicas que eu tinha para os caras. Eu, como já falei, tinha as composições feitas ali. Eu já tinha a primeira demo composta no primeiro ensaio (´risos´).
Mas foi foda passar para os caras. O único que conseguiu desenvolver o som foi o Vitão que para nossa surpresa manjava tocar bateria,
mas como não queria tocar aquele instrumento específico,
ficou na bola de meia e não falou que sabia das artes da bateria. Ele queria era tocar baixo, ele queria ser igual ao Dee Dee Ramone.
Terminado este primeiro ensaio, fomos comemorar todos nós, pois colou mais uma banca de amigos que ficaram sabendo do ensaio.
Todos fomos para o bairro de Santana, rolava um bar rock’n roll chamado Splash rock bar, onde todos os loucos da cidade colavam lá.
Eu digo todos de verdade, vinha galera de todos os locais para curtir aquele barril de pólvora chamado SPLASH.
Dentro do ônibus 1782 via Santana que sai do bairro de Vila Nova Galvão e até hoje faz ponto final no terminal de ônibus Santana, saiu o nome OdioSocial (inspirado por uma música de uma das bandas participantes de uma famosa coletânea dos meados dos anos 90, a coletânea se chamava SP Punk 1).
Assim no busão indo para o rolê depois deste primeiro ensaio surgiu o nome OdioSocial.
Fizemos nosso primeiro som no clássico TIO SAM em um bairro da zona norte de São Paulo, próximo a Santana. Tocamos na ocasião com as bandas Phobia, Voz Ativa, Juventude Maldita, Abandonados, entre algumas que eu lembro.
Agora é muita coisa meu. Depois de alguns meses,acho que dois meses, depois desta primeira apresentação, gravamos nossa primeira demo tape(fita cassete) ao vivão sem massagem no rec, ali mesmo. Essa demo tape tem 11 músicas e até hoje eu curto aquela podrera, pois foi muito legal conseguir registrar aquelas músicas, punk, hardcore.
Aquilo é muito punk/hardcore.
E o espírito guerreiro underground que levamos até hoje…
Assim, falando por cima, surgiu o OdioSocial.

 

Em agosto deste ano vocês estão completando 17 anos de estrada, o que mudou durante essa trajetória, além da formação?
Então, nada mudou. De verdade.
Continuamos compondo nossas músicas baseados nas vivências de rua que temos, OdioSocial significa: “Visão das ruas, visão da nossa sociedade doente”.
Desde o fim de 2009 firmamos juntos a formação Douglas, Fábio e Leandro. Nos conhecemos desde o início dos anos 2000. Então creio que o faça você mesmo é levado à risca por aqui, como sempre, desde o início…

 

Vocês fizeram uma turnê pela Europa há pouco mais de 2 anos, quais foram os maiores impactos para vocês ao tocarem no velho continente?
O impacto de uma tour para uma banda punk da periferia do Brasil não tem como não ser perturbador. Você começa a pensar: “Como faremos para reproduzir isto em nosso país??” Estamos “um pouco” atrasados no quesito organização, senso coletivo, nível de tratamento com as bandas, mas, com certeza um dia chegaremos próximos do que é praticado na Europa. Temos pessoas bem intencionadas e honestas em nossa cena nacional, isso vai se espalhando aos poucos e em breve chegaremos próximo.

 

É visivelmente notório como após a primeira turnê européia, vocês voltaram com mais energia, produzindo mais e até com um som mais pesado. Esses dias em outros países, vivenciando outra realidade, influenciaram vocês nesse sentido?
Tudo que é bom contagia e coloca para cima. Novas idéias, novas vivências, velhos vícios e manias deixados de lado, novas visões do underground como um todo. Tudo isso te abre um novo leque mental e cultural e você acaba indo em frente com novas produções. Realmente abre um novo olhar sobre a cena em que você está inserido e vivendo o dia a dia.

 

As letras da OdioSocial são em português. Vocês pensam em lançar algo em inglês ou outra língua para alcançar outros públicos ou vocês acham que isso não é necessário?
Sempre pensamos em melhorar a nossa comunicação com os amigos de outras localidades, de outros países, logicamente são línguas diferentes da nossa. Em breve faremos algo para homenagear todos esses amigos que nos apoiam pelo mundo…

 

Vocês sempre lançaram o material de vocês em fita K-7, mesmo em épocas que o CD era o formato mais consumido. Depois lançaram “Jovens Mortos…” em vinil, além de um split com os alemães da Killbite. Lançar o material de vocês em vinil era um objetivo a ser alcançado?
Lançar material em vinil era um sonho em comum de todos da banda. Sempre foi. OdioSocial primeiro lançou um EP 7 polegadas com 5 músicas, depois veio o “Jovens Mortos” e agora o Split com o Killbite…

 

Impossível não citar a música “Motoredson” nesta entrevista, visto que é uma música que quando vocês tocam, ela surte uma energia incrível nas pessoas que estão nos shows. Como foi a ideia de escrever uma música em homenagem ao Redson e qual foi a importância dele para vocês?
Cólera é uma das maiores influências do OdioSocial, Motöredson foi apenas uma pequena homenagem que a banda prestou a toda a obra de Redson Pozzi frente ao Cólera. Ele lutou pelo punk,lutou pelo underground a vida toda. Ele é sim a maior figura do punk na América Latina.

 

A banda está preparando o novo álbum. O que podemos esperar desse novo material? Vocês podem adiantar alguma coisa?
Sim!!! O novo álbum está gravado, são 13 músicas inéditas do puro punk/hardcore rueiro das ruas e periferias do Brasil… Neste momento que estamos conversando aqui o novo álbum está sendo masterizado no Estúdio Mr.Som, em São Paulo, pelo mestre Heros Trench e o mito Marcelo Pompeu. Quem gosta do estilo de punk e hardcore que OdioSocial faz não vai se arrepender, pois digo sem medo de errar, estamos falando do “Melhor Álbum da carreira dessa banda chamada OdioSocial” com toda a certeza!!!!

 

Vocês estão preparados para a segunda turnê européia? Quais são as expectativas? Vocês vão passar por alguma cidade que não tenham passado na primeira turnê?
Estamos rumo à segunda tour europeia. Na verdade não acreditamos que realizamos a primeira (´risos´), é muita emoção e muito foda ter a oportunidade de fazer o que você gosta para os punks de outros locais do mundo também, é muito foda!!! As expectativas são sempre as melhores: ficar 4 dias sem tomar banho, beber toda cerveja possível, reencontrar e fazer novos amigos, trazer uns novos LP’s. Vivenciar a cultura punk na Europa é algo bem forte.
A respeito dos locais dos shows apenas dois irão se repetir, Paris, dia 12 de setembro e Praga, dia 21 de setembro. As outras datas para nossa felicidade é tudo novo. É sempre bom conhecer novos locais, enriquece a mente…

 

Há uma grande renovação de espaços para shows na cidade de São Paulo, como a abertura do Espaço Som para shows mais intimistas, além de outros espaços. Mas ao mesmo tempo vimos o anúncio de encerramento de casas como o Hangar110 e do Inferno Club. Isso só para citar alguns. Como vocês vêm essas mudanças de espaços para as bandas?
O que vemos e vivemos durante todos estes anos na cena de São Paulo é que sempre haverá a abertura de novos espaços e também o fechamento de outros muitos também. O punk nunca teve um lugar para chamá-lo de seu, pois todo lugar pode ser tornado um local punk. Rolou uma Gig, rolou duas, a galera sentiu firmeza no locale é o dono é firmeza, não é cuzão, pronto está aberto um novo espaço da cena underground. Logicamente que tem locais que duram mais e tals. Sempre tocamos em bares (butecos), o dono deixava fazer dois três shows, mas depois desistia por causa do barulho, aí íamos para outro bar e assim ia rolando. O exemplo do Hangar 110 é que ele está aí há muitos e muitos anos e fechar um espaço assim é realmente triste e difícil, mas o dono do local sabe o que é melhor para ele e tals. O motivo real eu não sei, mas sei que o punk sempre foi assim: locais novos vão surgindo, outros antigos fechando. O importante é progredir para melhor, isso é o importante!!! O punk sempre vivo… O punk, o Crust, o D-beat, o Hardcore, o Grind. Para mim hoje a cena está misturada assim, todo mundo coexistindo e se respeitando, de forma que as melhoras vão surgir.

OdioSocial é:
Leandro Sampaio – Guitarra e vocal
Fábio Ricardo – Baixo e Vocal
Douglas Vieira – Bateria e Vocal

Para saber mais sobre a banda,clique aqui!

* Caso conheça o autor das fotos, favor nos contactar para darmos os devidos créditos.
**Todas as perguntas respondidas pela banda, exceto a primeira, que foi respondida por Leandro Sampaio (guitarra/vocal).

Veja as datas e locais dos shows da turnê européia 2017:

 

 

Deise Santos

Carioca, jornalista, produtora cultural, baixista e guia de turismo.
Deise Santos é apaixonada por música – principalmente rock e suas vertentes -, literatura, fotografia, cinema, além de colecionadora – contida – de vinis.
Pé no chão e cabeça nas nuvens definem a inquietude de quem está sempre querendo viajar, conhecer pessoas e culturas diferentes.
Idealizadora do Revoluta desde seus ensaios com zines, blogs e informativos, a jornalista tem como característica a persistência em projetos que resolve abraçar.

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