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Inferno vive noite de curimba e hardcore

Gangrena Gasosa
(Inferno Club/SP – 03/12/11)

Texto e fotos: Márcio Sno

A última vez que a Gangrena Gasosa tocou em São Paulo, foi no Aeroanta, espaço demolido para dar espaço à estação Faria Lima do Metrô. Depois de mais de 15 anos sem tocar na terra da garoa, os macumbeiros da Gangrena Gasosa vieram para cidade gravar o seu primeiro DVD. E nada mais apropriado do que gravar no Inferno.
O Inferno fica no que chamam de Baixo Augusta, o lado mais podre de uma das ruas mais conhecidas de São Paulo, conhecido por suas boates de prostituição e as casas de shows alternativos. Foi lá que o pessoal da Black Vomit Filmes (que produziu Guidable – A verdadeira história do Ratos de Porão) escolheu para gravar “Desagradável”. A decoração ficou com a pegada de filmes de terror B, com direito a muitas cabeças de cera, crânios, pedaços de braços, pernas e víceras penduradas e, claro, as cuias de despachos, imagens de diabo e a farofa características da Gangrena.
A ansiedade da banda para essa gravação já se arrastava por algumas semanas e estava mais latente momentos antes do show, principalmente por conta do público que foi chegando timidamente. Havia um show de uma banda gringa no mesmo dia. Mas eles provaram, mais uma vez, que santo de casa também faz milagre.
Para deixar o inferno (sim, no sentido literal) no ponto, tocaram as bandas Hutt, Faccion de Sangre e Atroz. Todas com canções que seguiram na linha “trilha sonora para o fim do mundo”, com sets curtos, cheio de energia e pancadas na moleira.
Após acertar os últimos retoques, organizar os despacho, acender as velas, a Gangrena sobe ao palco e o rec das 5 filmadoras foram acionados. Pomba Gira na percussão (linda, por sinal), Exú Caveira na guitarra, Exú Lúcifer no baixo e Exú Morcego na bateria, começam com uma versão upgrade de “Troops of Olodum”, seguido de “Surf Iemanjá”, com os vocalistas Zé Pelintra e Omulú já incorporados. A partir daí, o ponto já estava marcado e todos os espíritos do mal já rodeavam o espaço.
Mesclaram sons de todas as fases da banda, com ênfase em “Se deus é 10, satanás é 666” e “Smells like a tenda spírita”, mas também clássicos das demo-tapes como “Pegue o santo or die”. Todas as canções cantadas em coro pelo público que encheu o espaço.
No meio de “Benzer até Morrer/Kurimba Ruim”, aparece o Pai Jão, cumprimentando o todos os integrantes da maneira tradicional dos umbandistas. Não entendeu? O Pai Jão é o guitarrista do Ratos de Porão, que incorporou muito bem o personagem, com seu charuto, guias e roupas brancas. Foi muito engraçada essa participação, para delírio do público e, claro, da banda, que nasceu com o sonho de tocar ao lado do RDP no Circo Voador.
A introdução de “Despacho from hell”, foi a senha para os mais velhos (obrigado pela dica, Panço!) ficarem espertos para não tomar a chuva de farinha. Porém, geral estava a fim de ser abençoado (ou amaldiçoados) pela oferenda que teve ajuda de Pai Jão na distribuição.Ao final de “Artimanhas do catiço”, duas fãs invadiram o palco e foram possuídas pelas entidades presentes: uma amarrada e com o pescoço cortado e outra que realizou um parto forçado pelo diabo (sim, ele em pessoa, modelo da capa do último disco), que comeu e jogou pedaços do feto para o público.
E, pra fechar, num clima bem Slayer, Exu Morcego cuspiu sangue para cima. Uma apoteose de dar medo! Muita gente ali deve ter se revirado na cama relembrando aquelas cenas!
E assim foi a derradeira canção da banda. Não foi possível nenhum bis, pois tinham horário para entregar o espaço e os seguranças estavam botando todo mundo pra fora, com uma delicadeza semelhante aos sons tocados no dia.
Foi uma apresentação magistral de uma das bandas mais originais do rock brasileiro. Quem perdeu, agora espere até lançar o DVD, que está sendo produzido no esquema de “vaquinha virtual”, onde cada um pode ajudar de alguma forma.
Caso queira mandar sua oferenda, acesse o site:
http://www.movere.me/exibeProjeto.do?id=60

Deise Santos
Carioca, jornalista, produtora cultural, baixista e guia de turismo. Deise Santos é apaixonada por música - principalmente rock e suas vertentes -, literatura, fotografia, cinema, além de colecionadora - contida - de vinis. Pé no chão e cabeça nas nuvens definem a inquietude de quem está sempre querendo viajar, conhecer pessoas e culturas diferentes. Idealizadora do Revoluta desde seus ensaios com zines, blogs e informativos, a jornalista tem como característica a persistência em projetos que resolve abraçar.
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