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A Guerra dos Ratos

Contrariando todas as estatísticas do hardcore dos anos 90, o Mukeka di Rato é a banda que mais tempo continua tocando e gravando disco entre as bandas daquela época.
Quatro anos após lançar o disco Atletas de Fristo, a banda que leva o nome de Vila Velha para o mundo lança seu décimo disco (entrando na soma dois splits e o compilado Vila Velha 95-96) tendo como tema a guerra. Hitler’s Dog Stalin Rats apresenta um Mukeka di Rato mais sério, curto e grosso, com gravação primorosa e produtores de primeira linha.

Conversei com o baixista e empresário Fábio Mozine, que falou um pouco mais sobre esse mais recente disco da banda e ainda sobre sua gravadora Läjä, seu personagem Crackinho e ainda a sua aventura no cinema.

Entrevista por Márcio Sno
Fotos por Marina Melchers

O Mukeka di Rato começou de uma forma despretensiosa lá nos anos 90 e já passou dos 20 anos de existência. Particularmente, não imaginava que a banda chegasse a tanto. E vocês, pensavam que iriam tão longe? O que explica essa longevidade?
Isso é muito inimaginável. É bizarro, mas aí estamos. Talvez a sinceridade do Mukeka seja nosso grande trunfo.

As gravações de Hitler’s Dog Stalin Rats foram realizadas no estúdio El Rocha, sob a responsabilidade de nada mesmo que Fernando Sanches e Daniel Ganjaman. Como foi trabalhar nesse estúdio e com esses produtores?
Foi bastante agradável e fácil. Fernando preparou toda a cama e Ganjaman chegou rasgando. (risos) Foi foda. Muito bom falar com pessoas que entendem a sua língua. Muito bom usar um disco da década de 90 do Anti-Cimex como referência, um disco considerado tecnicamente ruim e nego abraçar a causa, buscar informação, tentar descobrir como os caras gravaram a guitarra no sub e/ou simular isso de ouvido, muito foda!
Fora isso, teve uma profundidade, ecos, delays usados pelo Ganja, os quais nunca havíamos usado. Até pra gente soou um pouco estranho na hora, já que, desde o Carne [disco de 2007], havíamos começado a usar os vocais mais alto que o instrumental, mas o resultado final me agradou muito.

Mesmo tendono passado envolvido com o hardcore, Ganjaman hoje é bem conhecido pelos seus trabalhos com produções grandiosas como Instituto, Criolo, Racionais MCs, entre outros. O que levou você a escolher esse cara?
Sempre foi uma cara solícito comigo, das vezes que nos encontrávamos. Nunca se disse fã do Mukeka, mas sempre respeitou a banda e, quando pude convidá-lo, aceitou de uma forma muita espontânea, achei bem foda. Sem contar o Fernando que fez um trampo foda também, a coisa lá flui tudo de forma fácil e rápida. É um puta estúdio com um material humaninho ali dentro que vale ouro.

O disco de estreia de vocês contou com 24 canções e o último com 8. Houve uma limitação criativa ou refinamento do trabalho?
Houve uma preguiça. Sinceramente, por mais que o Pasqualin [primeiro disco da banda] tenha uma certa unidade musical, ao mesmo tempo é meio colcha de retalhos. Isso porque, era pra ter mais duas músicas que acabaram ficando pro [segundo disco] Gaiola. Jovem, doido pra fazer, doido pra gravar etc.
O único trabalho posterior que fiz com várias músicas foi o Índio Cocalero [da banda Merda], esse sim, tem várias músicas porque era pra ter, tem uma unidade etc. Porra, nunca mais faço, trabalheira da porra!!!! Oito músicas é pouco para um CD sim, tanto que o formato desse disco é um 10 polegadas. É que ele ainda não saiu, então lançamos o CD por enquanto.

E está previsto para quando o vinil? Vai rolar parceria com algum selo gringo?
Acho que vamos lançar em dois formatos. Vinil de 12” no Brasil, pela Läjä e Hearts Bleed Blue – que têm sido meus grandes parceiros no Brasil, eles são agora os distribuidores oficiais da Läjä e pretendo fazer com eles vários trabalhos. No exterior vai sair em 10” pela SPHC, o mesmo selo que lançou o Índio Cocalero e nos levou pra tocar nos EUA em 2013. Será um 10” com capa gatefold, acho que vai ficar bem diferente e bonito. O LP no Brasil deve sair em 2 meses, na gringa eu não sei, mas sai em 2015.

Hitler’s Dog Stalin Rats fala de guerra. Algum motivo especial para chegarem esse tema?
Não, sempre gostamos de crust etc. Volta e meia estou lendo sobre Segunda Guerra Mundial, mas a própria música-título desse disco se encaixa perfeitamente sobre o que tem acontecido com a sociedade brasileira no exato momento. A música “Operazione imondizia” fala sobre as milícias brasileiras traçando um paralelo com a máfia italiana. Ou seja, existem vários tipos de guerras, e são elas que são retratadas em cada uma das letras, algumas estão através de metáforas.

Algo que marca esse disco é que as letras parecem estar mais sérias do que as de trabalhos anteriores. O tapa na cara agora é mais forte?
Acho que faz parte desse disco. Creio que nosso próximo, o Quarenta Carnavais, vai ter uma outra abordagem, mesmo que os assuntos sejam até mais tensos que os do Hitler’s.

As canções são cantadas em diversos idiomas. Como foi experimentar essa diversidade de línguas?
Tranquilo. A gente sempre ouviu muitas bandas européias, diversas bandas italianas, diversas que cantam em espanhol… Foi divertido. Tivemos ajuda profissional na letra em italiano, o Sandro [vocalista] teve muito cuidado. A em espanhol e as em inglês, quanto mais sotaque de brasileiro, a gente acha legal, porque a gente fala português e as pessoas sabem que são brasileiros cantando em outra língua, eu gosto desse sotaque.

Vocês regravaram “Guerra desumana” do Ratos de Porão com um arranjo bem diferente. Fale um pouco sobre essa composição e também como foi a participação do João Gordo em “Full metal jacket”…
A princípio fomos convidados para participar de um tributo nacional ao RDP (o volume 2 se não me engano) e como estávamos prestes a gravar esse disco, caiu como uma luva. Pedi a liberação pro Gordo e, ao mesmo tempo, já convidei ele pra gravar no disco.
Ficamos felizes que ele tenha aceitado. Eu trabalho com o RDP na Läjä e conheço o Gordo há alguns anos. O RDP é uma grande influência pra mim, talvez nem tanto musicalmente, porque não soamos tão crossover como eles, mas pra tentar levar a banda tanto tempo, pra daqui a 10 anos você repetir pra mim a pergunta de como conseguimos chegar aos 30 anos! (risos)

E por que optaram em colocar o Gordo em outra faixa que não a de uma música do RDP?
Acho que seria muito óbvio. Muito mais legal colocar ele pra cantar em outra faixa, sem contar que caiu como uma luva pra ele aquela música, ao meu ver.

Com qual música vocês estão participando desse tributo ao RDP? Tem ideia de quando sai?
Seria justamente a música “Guerra Desumana”. A ideia já foi fazer ela pra matar esses dois coelhos, faz parte do tributo e do CD, mas sinceramente não sei quando, nem se realmente vai sair esse tributo volume 2.

O disco foi lançado primeiro via iTunes para posteriormente sair em vinil. Como foi a venda por esse meio e como observa essa forma de distribuição fonográfica?
Foi ruim, vendeu bem pouco, mas já imaginávamos isso. Como você pode ver, tentamos bastante coisas diferentes. Mas o lance é sempre lançar em todos os formatos, inclusive, de formas que sejam de graça pra galera, como tá no Bandcamp, Youtube etc.

Com a força que o vinil vem ganhando e essa distribuição digital (venda e streaming) já é possível começar a esquecer o CD?
Acho que sim, essa já é uma guerra perdida, se é que tem alguém lutando.

Em 2007 você fizeram uma histórica viagem ao Japão, registrado no documentário “Kanela Verde Japanese”. Há alguma possibilidade de alguma tour internacional?
Não. Por enquanto posso lhe garantir que não vamos tocar, a não ser que surja um contrato da Madonna, o que não vai rolar.

Vocês tiveram uma passagem relâmpago pela Deck Disc. Qual o caldo que isso deu?
Caldo muito positivo, nem considero que tenho uma passagem por uma major, pra mim era como se estivéssemos numa gravadora independente, só que com umas regalias legais. Aprendi alguma coisa boa de estudio e o Rafa Ramos nos ajuda muito até hoje.

Além do MDR você também segue com a Merda e Os Pedrero. O que diferencia uma banda da outra e qual a prioridade que dá a cada uma delas?
Cada uma tem a sua prioridade no seu momento. Às vezes é bem distinto tocar em cada uma dessas bandas, às vezes é uma confusão. Mas a minha vida é uma confusão, tá bom assim.

Recentemente saiu uma matéria sobre os integrantes de bandas que mantém um trabalho para sobreviver. O que é muito comum tratando-se de bandas hardcore. Vocês já conseguem viver só de música?
Eu vivo de música porque eu tenho mil frentes de batalha: desde capa de discos até assessoria de imprensa eu faço, também trabalho com projetos governamenais, além de trabalhar PRA CARALHO com a Läjä. Mas minha vida toda eu trabalhei com empregos normais, isso é vital para conseguir se manter, a não ser que você faça muito sucesso, o que é bem pouco provável.

Durante um bom período você era uma personalidade underground e hoje já é uma personalidade dentro do rock brasileiro. É isso mesmo? Como é pra você obter o respeito de muitos nomes fortes do punk/hardcore nacional?
Sei lá, eu não gosto de pensar nisso, prefiro continuar na minha, trabalhando do meu jeito, agora usando bastante essas ferramentas tipo Facebook, que qualquer tio velho tipo eu sabe usar, só sair postando, escrevendo, não sei muito dessas coisas aí não.

Você lançou o personagem Crackinho que faz um sucesso absurdo, inclusive tem muita gente tatuando e acaba de sair o formato de boneco. O que explica tamanho sucesso? E a animação dele, quando sai?
Rapaz, é bizarro, né? Antes mesmo de tocar música eu já mexia com desenhos, HQ etc. Além do Crackinho eu tenho uma dezena de outros desenhos: uns cachorrinhos, outras paradas, mas ele realmente caiu na graça da galera. Fernando Rick, diretor da Black Vomit Filmes [que lançou os documentários do RDP e da Gangrena Gasosa] tem um episódio piloto praticamente finalizado, mas ainda não sabemos como e quando vamos lançar isso. Estamos trabalhando e pensando, não tem prazo.

O seu selo Läjä já lançou diversos títulos em CD, LP, DVD, livros, vestuário etc. Como é administrar uma empresa independente especializada em música barulhenta?
Agora minha esposa tem me ajudado, principalmente com o site. Mas é meio tosco às vezes, eu sou tosco pra caralho, às vezes estou bêbado, estou de ressaca, faço umas coisas erradas, mas vou tentando consertar e vai rolando.

Recentemente você se aventurou como ator no filme “Os incostestáveis”. O que podemos esperar de você contracenando? Fale mais sobre esse trabalho.
Cara, desde o início, eu acho ruim. Odeio os vídeos que saem, acho minha atuação péssima! Mas o pessoal insistiu muito e eu fiz, por dois motivos: primeiro porque o roteiro é maravilhoso e porque tinha uma equipe fodaça, muito alto nível trabalhando. Então eu tentei e, segundo, por dinheiro, que foi uma boa grana. Não tenho uma gota de vergonha de falar que fiz pela grana, mas ao mesmo tempo, sendo bom ou não o resultado final, os dias que estive trabalhando com os caras eu me entreguei 24 horas por dia pra fazer a parada, então acho que é isso.

Há alguns anos você incentivou a campanha “Mukeka di Rato, por favor acabe!” Por que a campanha não deu certo?
Era marketing purinho, só pra vender camisa.

E vendeu muito?
Umas oito camisas em 5 anos! Uma eu peguei pra mim e uma vendi a preço de custo pra minha mãe. Total: 10 camisas.

Agradecimento especial: Ricardo Tibiu

http://www.laja.com.br
https://www.facebook.com/laja.rex
http://lajarex.bandcamp.com/
https://www.youtube.com/user/lajarex

 

Deise Santos

Carioca, jornalista, produtora cultural, baixista e guia de turismo.
Deise Santos é apaixonada por música – principalmente rock e suas vertentes -, literatura, fotografia, cinema, além de colecionadora – contida – de vinis.
Pé no chão e cabeça nas nuvens definem a inquietude de quem está sempre querendo viajar, conhecer pessoas e culturas diferentes.
Idealizadora do Revoluta desde seus ensaios com zines, blogs e informativos, a jornalista tem como característica a persistência em projetos que resolve abraçar.

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